Séculos XV ao XVII
Eliane Colchete
O século XVII como continuação do Renascimento iniciado no século XV, no sentido da
plenitude do que neste se processava, tem sido uma possibilidade de
interpretação da história bastante desusada. A ênfase na ruptura
é compreensível. Basta recordar por um instante o porte formidável
de René Descartes, o alcance gigantesco da revolução cartesiana.
A ruptura tem ademais a vantagem de ser facilmente definida. O
Renascimento é o elogio da loucura, a inconsistência de todas as
coisas que já não radicam numa fé que as petrifique como partes de
um todo de razão, pois Deus está sendo considerado como potência absoluta de criação. Em Descartes se presentifica a justificativa
moderna pioneira do conhecimento, e já sendo um novo tipo de
conhecimento o assim justificado, como não apenas uma ciência de
fatos, mas de leis. Aquilo que se justifica não poderia ser de nada
mais necessário e imutável.
Examinando mais de perto, o contraste total entre o Renascimento e o
século cartesiano inaugural do período "moderno",
inversamente a qualquer conservação de motivos, parece ao extremo
conveniente. Na era do Renascentismo italiano, o conhecimento
racional novamente emancipado após um milênio de dominação
católica, é pois daquilo que é por acaso nesse sentido do que é apreensível apenas por experiência. O acaso, porém, tem
dupla face. Tanto significa a inconsistência do mundo enquanto
podendo ser de modo irredutível ao conhecido, como por não haver justificativa do simples fato de ser.
Quanto ao pensamento do acaso em si, é a "fortuna", a
noção limite do helenismo antigo ante-cristão que retorna, mas com
um sentido peculiar. Na era pagã a "fortuna", elevada ao
único lugar da crença, substituindo todo o panteão, era o recurso
do sábio contra as surpresas do mundo, o guia da conduta como a
realidade cambiante em que o gozo estaria em adaptar-se. A fortuna
era pois a senha para o pensamento da pessoalidade, de um saber
exclusivo de si atuante num mundo-acaso, logo, na perspectiva da
pessoa, num mundo-necessidade, em que cada um viveria as suas.
Agora, na retomada do antigo paganismo mas num mundo cristianizado, a
"fortuna" retorna igualmente como o locus do real, porém
julgada a deusa oposta ao mérito, é pois a antagonista daqueles que
pela via da piedade mística ou do arrojo individual, almejam
construir seu futuro, no além-mundo ou intra-mundano. A posição do
humanismo seria pois a da prudência misturada ao arrojo, enquanto
que o helenismo antigo seccionava as escolas de prudência das
escolas do arrojo, estas que consideravam a boa conduta como
adaptação à fortuna.
Para Carpeaux ("História da Literatura Universal", Rio de
Janeira, Alhambra, 1985, p. 291), a "fortuna" é como
chamaríamos hoje, integrante de um ideologema. Como obstáculo do
arbítrio ela figura apenas um obstáculo bem concreto e histórico à
ideologia desse super-homem naturalista-humanista do Renascimento,
que vê o mundo como o todo de que sua mente não é apenas a parte,
como o corpo, e sim o reflexo inteligente, de modo que é o teatro de
sua ação. Obstáculo pois à vontade de poder traduzida na conduta
visando o objetivo. A fortuna é pois, segundo Carpeaux, bem
consequentemente, a base material, a "realidade semimedieval,
eclesiástica e agrária", que por ser tão incontornável,
ainda que já visada num contraste ao que sonha a imaginação
modernizante , pode apresentar-se idealizada como num retomada dos
elogios de Horácio à vida campestre contemplativa contra a agitação
das cidades, porém agora como um pensamento platônico, de que as
Stanze de Poliziano é exemplo, representando a fuga para o
mundo espiritual.
Aqui vemos o habitual em Carpeaux, a formulação de estilos de época relacionados ao período político, assim os pós-feudais conforme a base material que é o estágio do capitalismo ou relativo à modernização que no capitalismo se conclui. Assim como o Renascimento é o ímpeto desse super-homem da modernização no rumo da conquista ultramarina, porém cerceado pelo obstáculo agrário semimedieval que só o absolutismo irá desbastar transformando após a fronda a aristocracia numa côrte domada pelo rei, o pré-romantismo é o início do capitalismo, o realismo é a instalação da fábrica, etc. Segue-se que, ocorrendo como referencial histórico do acontecimento fundador num certo referencial, a Itália renascentista ou a Alemanha do Surm und Drang ao romanticismo, onde quer que se repita o mesmo acontecimento da base estrutural se repetirá o mesmo estilo de época. Não se verifica desse modo, o que está na internet atribuído por J. M. Silva a Olavo de Carvalho, segundo o que[Carpeaux] seria "exatamente o avesso de um marxista: não acreditava na primazia do econômico, enfatizava a importância dos fatores espirituais e identificava mesmo de vez em quando, nos movimentos da História universal, sinais misteriosos de uma intervenção da Providência, o que o tornava mais próximo de Bossuet que de Marx".
Como vimos, conforme Carpeaux, o misticismo renascentista é moderno, uma "doutrina da
ação", e não de fato contemplativo. Resta o explicar, num
meio de exaltação do super-homem empreendedor, conquistador dos
hemisférios, inventor de artefatos miraculosos e conhecedor dos
corpos naturais. Para Carpeaux, mesmo sendo ativo nesse sentido
paradoxal da decisão platônica pelo retiro espiritual, ele traduz
um descompasso, aquele entre a ambição do super-homem e o obstáculo feudal imajado porém como o imprevisto, numa palavra, o acaso, idealizado como fortuna. Na verdade, o obstáculo bem material sendo o peso do passado tradicional ainda
não removido no presente pós-feudal.
Ora, se a fortuna antiga limitava o conhecimento à autognose das
antigas escolas de felicidade como dos cínicos e cirenaicos, que
rejeitavam pois um saber sobre um mundo mutável, o
Renascimento a pensa numa relação com a convergência
característica da época entre saber e poder. O essencial da visão
de mundo renascentista é pois a de um mundo que é, que pode ser
conhecido, porém por um conhecimento dos fatos, o que poderia não ser ou ser
outro, visto que a teologia bíblica agora não explica por que é
como é, nessa contingência das descobertas que tornaram o saber
medieval, compatível com a interpretação cristã da bíblia,
inteiramente obsoleto.
A inconsistência do ser como o que pode não ser vemos expressa
entre as variantes dos neopirrônicos, o libertino Bonaventura de
Perier, no Cymbalum mundi (1537) escarnecedor das tradições
fantásticas ligadas aos evangelhos; ou cristãos
anti-intelectualistas como Agrippa de Nettesheim, Omar Talon,
Rabelais e Montaigne, escrevendo mais ou menos acremente contra os
falsos saberes do medievo e a dialética, porém assim num síntese
notável das diatribes dos padres medievais contra ela, com o
Acadêmicos de Cícero, conforme Bréhier ("Histoire de
la philosophie", Paris, P.U.F. 1989, p. 677). Entre todos
Montaigne é destaque por sua influência posterior, porém o costume
é reservar seu pensamento num contraste ao século do espírito
cartesiano, todo determinado pelas ideias inatas. Nele se prefigura o
sujeito pensável desde o século XIX, porém a concepção do seu
"moi" flutuante como o esperável de um observador das
coisas instáveis, é avessa a toda teoria possível da
subjetividade. O pirronismo intimista de Montaigne é a visão de um
mundo de puras variedade e dessemelhança, onde o que semelha só
está aí como o reverso do que difere. Mas assim o "eu" da
deriva absoluta se torna o centro do mundo possível. Ele justifica a
ciência, como o intelecto cartesiano, mas enquanto para este a
validação tem um sentido na ciência mesma, ideal-racional, para
Montaigne o "eu" a justifica somente enquanto o que lhe é
útil. Assim o contraste entre Montaigne e Descartes seria exemplar
daquele que Bakhtin definiu entre o Renascimento rabelaisiano como
era da polifonia e do riso, e o século XVII como a estabilização
monofônica do sério que apenas seria o reflexo da segurança
conquistada pela monarquia.
As vertentes que visavam o conhecimento de um mundo que poderia ser
outro seria representável a meu ver nos quadros de Boch figurando
espécies imaginárias, compósitos de homem e animal habitando
paisagens fantásticas; no florescimento da alquimia, em casa na
mentalidade da época que acredita novamente, como na era pretérita
do paganismo, na túnica inconsútil do universo, um todo em que tudo
apela a tudo, agora pensado como a magia das similitudes e
assinalações, onde uma coisa não vale senão pela correspondência
a outras que se possam julgar sob a mesma estrela ou qualidade
transcendente, marcada nas coisas como sinal que se revela ao
sábio; e na cabala que a tudo traduz na comunidade das combinações
dos signos constitutivos dos fenômenos, especialmente ativa entre os
místicos alemães que difundiam a concepção da ação mútua das
coisas, como Paracelso, Weigel e Jacob Boehme. Bréhier vê nessa
mística muito de retorno de movimentos espirituais heréticos da
idade média, assim como Bakhtin considera Rabelais, a subida ao
plano literário culto do que eram até aí os costumes e linguagem
populares do medievo, desconhecidas ou reprimidas pelo alto clero.
Em Carpeaux na mística da Renascença se vislumbra uma atitude
voluntarista, contrária pois ao determinismo astrológico, uma vez
significando adesão à magia como instrumento da imposição da
vontade pessoal contra toda determinação natural. Em todo caso, a
seu ver "o apego do homem renascentista às ciências ocultas é
um fato importante: impede a confusão entre humanismo e
progressismo moderno". Constatável pois, a perspectiva da
ruptura, o Renascimento é imiscível, ainda, à verdadeira
modernidade.
Bréhier segue as linhas gerais dessa interpretação, porém
acentuando, como não deixa de fazer Carpeaux, a mudança na relação
da história do pensamento intelectual e a vida religiosa nesse novo
misticismo que não procura as revelações do saber escolástico, ao
contrário, onde todo raciocínio ou entendimento mundano é
obstáculo, porque o objetivo é apenas a liberdade interior, a
independência da alma, o estado incoercível de um espírito que
deus modela como por meio dessas palavras divinas incompreensíveis,
que os místicos sentem pronunciadas em seu interior
sem tentar saber o que significam. (p. 699)
O platonismo dominante no Renascimento é a visão da alma do mundo
como o todo inteligível, reinterpretada conforme a intuição da
Natureza imanente de Bruno, onde os infinitos mundos formam um
sistema orgânico movidos por uma força universal, e triunfa sobre a
independência dos gêneros substanciais predicada por Aristóteles.
A luta contra Aristóteles inaugura-se pelo panfleto assinado pelo
platônico Pleton em Florença (1440), em defesa da imortalidade da
alma, e alcança repercussão com a obra de Ficino, que segundo
Bréhier espelha a seleção dos aspectos religiosos ou poéticos da
doutrina platônica. Geralmente não considerado original, em
Carpeaux e Bréhier contudo ressalta-se o seu valor de testemunho do
típico pensamento platônico da época, onde a predicada fusão da
verdadeira filosofia com o cristianismo seria perfeita, um Deus
criador das almas pessoais, da imortalidade e liberdade, podendo
assim ser o Deus da religião comum a toda humanidade, e que atinge
uma teologia mística do amor, conforme a teoria emanatista do amor
divino espalhado pelo mundo. A tese do cristianismo platônico surge
assim, como no próprio Erasmo de Roterdã, mas de um modo mais
historicamente exemplar em Amaury Bouchard, que se beneficia da
substância dessa concepção, a saber, um ecletismo que prega a
comunidade de todos os que crêem na oposição da alma eterna e do
corpo material, de todos os piedosos que se limitam inteiramente à
contemplação das coisas divinas e rejeitam atribuição de
conhecimento aos dados empíricos. Amaury Bouchard reune na sua
demonstração do Timeu platônico, citações pitagóricas de Lineu
e Orfeu, que constam na Theologia Platõnica de Ficino.
O argumento para a estabilização da interpretação histórica do
século XVII como ruptura radical relativamente ao Renascimento,
teria nos paduanos que permaneceram fiéis a Aristóteles a
referência decisiva. Aí se fez a defesa do naturalismo, com a
circunstância de que Pádua, estando sob a proteção da República
de Veneza, ficou a salvo da Inquisição, mesmo a mais tardia, dos
Jesuítas, anulada por decisão do Senado veneziano. O jesuitismo
não foi menos defensor de Aristóteles, porém estritamente conforme
ao tomismo. Ambas as versões de Aristóteles mantem portanto o que a
ciência nascente das descobertas da época nega, assim o limite que
subjaz à ruptura de Renascimento e mundo moderno se tornaria
tipicamente definido.
A partir do século XVII, inversamente ao conhecimento só possível
predicado de um ser inconsistente que é assim podendo não ser ou
ser outro, ou apenas relacionado a um misticismo totalizante que
conduz mais à salvação interior do que à justificativa do ser,
instaura-se a moderna racionalidade em sentido próprio. Descartes
opera a mudança radical como se costuma enfatizar, refutando a
dúvida possível. Com a impossibilidade do ceticismo como uma das
vertentes na interpretação da realidade imprevisível, tanto porque
ela é milagre de Deus como porque ela é ação por fazer do homem,
deixa de haver o obstáculo ao conhecimento suposto das coisas em si
enquanto idealidade da razão.
Mas de fato o que podemos assim constatar nesse concerto em torno da
ruptura, é uma fratura na historicidade. Uma vez que, quando
se trata de explicar a modernidade enquanto Ocidental, isto é, como
a evolução da Razão científica, da objetividade mesma que assim
vem poder se expressar na sociedade, na legislação e na indústria,
a irredutibilidade das épocas se faz esquecida. O importante se
torna a continuidade do passado ao futuro por essa comunidade
profunda da cultura grega à europeia. Aqui nem mesmo o corte abissal
de antigo/feudal por um lado, moderno pós-feudal por outro lado,
alcança um status decisivo, ou a irredutibilidade dos focos
antigo-pagão e judeu-cristão. A realidade que se vem explicar, que
é nomeada modernidade, se define assim como a evolução, enquanto
algo novo, porém a explicação do novo é feita a partir da
modulação do antigo.
O aspecto verdadeiramente incompatível da ciência experimental e do
Sujeito pensável com toda a tradição conhecida até a descoberta
das Américas se faz abstraído pela questão da possibilidade do
saber. Aqui o curioso é que a minúcia do exame, assim como vimos
ser capital à demonstração da ruptura da era moderna, serve agora,
nesse outro interesse, ao contrário, à demonstração da
continuidade. Assim, um levantamento das influências dos inovadores
do século XVII revela o que já se fez demonstrar para o próprio
Galileu, esse tardo-renascentista que poderia outrossim ser o marco
da irredutibilidade de antigo e moderno, como criador do método
experimental e refutador da física aristotélica. Como o mostra
Bréhier, ele revive as concepções de Demócrito. As qualidades
sensíveis são correlatos subjetivos, como a cor ou o odor, não estão propriamente nas coisas, que podem
ser representadas sem elas. O som, o calor, independente das nossas
sensações são apenas modos do movimento.
Como doutrina principal do pensador, o atomismo se destaca na obra
de Gassendi, o amigo de Galileu, porém como Bréhier faz notar,
nada de novo propõe, apenas retoma sem originalidade, a antiga
doutrina de Lucrécio e Epicuro.
O sentido desse atomismo que emerge na transição do Renascimento e
se torna proeminente durante o Século XVII é irredutível a uma
afirmação da ciência como a de Descartes, pelo viés do ineísmo.
O que retem da teoria do conhecimento epicurista, a percepção como
recepção em nós de imagens emitidas pelos corpos, é porém
adaptado a perspectivas aristotélicas. O finalismo, e a noção de
que o aparelho receptor das sensações é uma alma finita, enquanto
infinito o espírito como substância capaz de auto-reflexão, razão
e liberdade.
Há uma inovação do atomismo, na verdade, não obstante as
definições serem as mesmas. O movimento dos átomos torna-se inato,
dado por Deus. Inversamente à teoria cartesiana que prevê a mudança
de velocidade após chocarem-se dois corpos, conforme a velocidade do
encontro e massa de cada um deles, Gassendi considera que o
movimento inato dos átomos mantem-se inalterado quando se chocam
entre si, só o que pode mudar é a direção do movimento.
A combinação de espiritualismo e mecanicismo é então não apenas
característica do atomismo de Gassendi, mas da época, conforme
Bréhier. A natureza, tão proeminente no período renascentista, é
agora no que menos se deposita qualquer fé. Bréhier até mesmo
começa a apresentação do volume sobre o século XVII com a fórmula
lapidar: "jamais algum século teve, menos que o século XVII
confiança nas forças espontâneas da natureza abandonada a ela
mesma". Quando se trata do atomismo, o enunciado do juízo sobre
a natureza ressoa com o prólogo. A natureza se deixa abandonar ao
seu mecanismo, mas assim fazendo-se objeto da inteligência que a
penetra, se torna desertada pelo espírito que nela não acha
qualquer apoio. Assim compreendemos porque o próprio atomismo não
resulta num naturalismo epicurista, precisando ao invés ser
combinado ao espiritualismo. A perspectiva de Bréhier se mostra
desse modo voluntariamente definida naquilo que seria uma escolha da
interpretação histórica, entre o liberalismo de Locke e os
sustentáculos do regime absolutista à Hobbes. Já que se trata em
Bréhier de evitar qualquer concepção de que o século de Locke
descobrira a exaltação do 'homem natural' nas Américas.
A propósito a introdução assim se complementa: "o homem
natural, aquele que é deixado sem regra ao conflito das paixões,
onde achar mais miserável pintura que entre os políticos e
moralistas do século?" Se pensarmos na guerra de todos contra
todos que define o estado de natureza hobbesiano poderíamos entender
a indagação, porém restaria a lacuna sobre o liberalismo de Locke,
onde o estado de natureza é aquele da harmonia natural do homem com
o meio, isento de conflito político. Porém as referências de
Bréhier são imediatas: não apenas Hobbes, mas seu acordo com La
Rochefoucault e deste com o jansenista Nicole. Os homens são bestas
feras no seu estado natural, e só um soberano absoluto os logra
domar. Já o jansenismo não crê em boas obras humanas, se houver
salvação só a graça de Deus poderia o explicar. Na verdade resta
o fator ambíguo do liberalismo naturalista de Locke. Porém
compreendemos a posição de Bréhier, não só como a escolha
interpretativa pela índole do século efetivamente dominante. O rei
absolutista, nada mais contrário ao tirano e o príncipe
renascentistas, que tudo fizeram por si só. Ele é, inversamente,
uma posição social determinada numa sociedade em que os homens não
consideram ser possível ficar em pé sem armadura, considerando um
estado de espírito como o de Montaigne nada além de incerto.
Uma sociedade, pois, do cerimonial necessário como guia da ação
nas relações sociais, como o ritual na igreja. A circunstância de
ministros que governam enquanto o rei é menor de idade apenas
demonstra como a posição social é o que importa na soberania
absolutista do século XVII, o rei por direito sagrado. Ora, a índole
do século não explicaria o liberalismo nele primeiro enunciado como
uma doutrina coerente pretendendo-se cientifica - contrariamente à
argumentação tradicionalista de Hobbes, ou jurídico-religiosa pelo
"direito divino" - uma vez que baseando-se no observável,
o homem selvagem da América. Porém mesmo em Locke o estado de
natureza se define como o oposto do estado de sociedade, uma vez que,
se este é a restauração daquele enquanto isento de conflito
político, não o pode ser nas mesmas condições naturais, há
necessidade de algo novo, o "contrato social' introduzido para
apaziguar o conflito que sobreveio contra o estado harmonioso
natural. O conflito é a dominação de uns sobre outros, a
degeneração da harmonia natural do homem com o meio pela
apropriação possível do trabalho alheio. A sociedade institui a
lei que preserva os direitos de existência livre e propriedade
privada, mas assim Locke considera a monarquia o mesmo que a
dominação, como o escravismo. O parlamentarismo é o contrato
social consubstanciado, inversamente a Hobbes que preconizava nesse
status o monarca absolutista.
( por revisar )
23
O parlamentarismo logrou afinal impor-se na Inglaterra desse século
tornando-a o modelo desejado de todo o século seguinte. Ele
demarcou, assim como James Frazer definiu, o primeiro ato de
supressão violenta cometido contra um rei por direito divino na
História. O rei obrigado pela Constituição tornou-se a figura
contemporânea do poder monárquico possível, permanecendo constante
na Ingalterra. Contudo, a exemplaridade inglesa no século XVIII,
agindo como influência das nações desejosas de emancipação
constitucional, não bastou, e como que a contrapelo das receitas dos
teóricos emergiu na França um estado de coisas complexo cujo
paralelo com o mesmo estado de coisas resolvido seria a democracia
estadunidense.
24
Ao longo do século XIX a relação entra a descoberta das Américas
e o liberalismo se torna mais nítida. A estabilização do rei
absolutista e mesmo a veleidade do tirano do Renascimento haviam se
tornado possíveis pela aliança das casas reais com os novos
burgueses enriquecidos pelo comércio, sobretudo o colonial. Assim
foi possível ao rei sustentar um exército superior às forças dos
nobres feudais que dominavam suas terras sem poder notável acima de
si.
25
A partir da composição do dinheiro, o rei subjugou a nobreza como à
sua grande família, e ela precisou acomodar-se à côrte. A
soberania era então a instância sancionadora do monopólio
comercial aos banqueiros e comerciantes, patrocinadores burgueses das
casas reais. Essa história sobejamente conhecida deve porém ser
retificada.
26
Contra a noção difundida de que a alta burguesia patrocinadora dos
exércitos reais interessava-se por uma transformação social
profunda, vir a suplantar a monarquia assim como a côrte
aristocrática, podemos observar que o liberalismo traduzia apenas
aspirações da parte da burguesia que não detinha nem podia aspirar
deter monopólios de exploração. Assim que o século XVIII colheu
os frutos da laicização científica com sua mentalidade tão
contrária à religiosidade imperante do século precedente, e as
"revoluções" se alastraram pela Europa, o que vemos é
então, bem compreensivelmente, a restauração da côrte
aristocrática, num status porém novamente produtivo fazendo-se ao
longo do século XIX.
27
Esse é o quadro estabilizado da Revolução Industrial na Prússia,
onde a transformação imperialista do antigo colonialismo já tinha
como agentes a composição de Junkers, nobreza civil e alta
burguesia, numa organização desenvolvimentista da economia
fortemente estatizada que se caracteriza pelas formações
monopolistas até a lei do cartel do período nazista, assim como
pelo regime ditatorial. Bem ao contrário de Marx na "Ideologia
Alemã", era na Alemanha do Kaiser que a História estava sendo
presentificada literalmente a pleno vapor, pelo fato mesmo de lá não
se fazer sentir qualquer necessidade da "revolução burguesa"
definida como antítese da aristocracia apenas por ser efetivamente
pós-feudal na perspectiva da produção já não limitada ao
agrarismo.
28
E quanto à Inglaterra parlamentar, a organização
industrial-imperialista da economia ao longo do oitoscentos mostra
que a função monárquica não ficou totalmente minizada como após
1945 tem sido, bem inversamente. Em todo caso, aí como em todo o
mundo capital-imperialista, a evidência do monopólio como meio de
exploração em escala imperialista estava se convertendo rapidamente
das concessões do governo às necessidades das empresas associadas
em lobbyngs para garantir ações de alcance imperialista sobre
países domináveis, até os grandes carteis internacionais que
dominaram o mundo nos seus setores de produção à exemplo do cartel
do material elétrico originado nos empreendimentos de Edison.
29
Esses organismos, assim como similares, os trustes e holdings que
precederam as atuais "multinacionais", estão formalizados
como os agentes do imperialismo planetariamente dominante, a
recolonização explícita na cartografia do Conflito Norte/Sul.
Assim, por um lado, vemos que os regimes ditatoriais, impostos
abruptamente como nas Repúblicas latino-americanas, ou
historicamente enraizados na tradição como nas monarquias europeias
até a Segunda Guerra, não são o antípoda do capital-imperialismo.
30
A mentalidade absolutista do século XVII tem sido tratada em termos
de um estado de coisas pré-capitalista, ainda que não
ante-capitalista no sentido de ser sem relação com a revolução
industrial por vir. Ou seja, o século XVII seria a acumulação
primitiva do capital necessário, por via do colonial-escravismo, à
revolução industrial que emancipou o escravo e liberou a
objetividade nas relações de produção. Ele seria também uma
espécie de transição entre o feudalismo agrário-aristocrático e
o liberalismo indutrial-burguês, como entre os regimes antigo e
contemporâneo.
31
Porém, de fato, se afastarmos a quimera marxista do liberalismo como
emancipação dialética do capital industrial, e nos cingirmos aos
fatos da história efetiva, constatamos que a revolução
epistemológica do século XIX não deixa de ser constatável, aí
onde a contemporaneidade se auto-interpretou em termos de ruptura
absoluta, mas não aportando a resultados compatíveis com a
pretensão de ter assim se definido. Paralelamente aos fatos
políticos do imperialismo, que apenas reconvertem a revolução
industrial aos pretéritos laços colonial-escravistas, desde os
tempos de Nietzsche em diante as teorias tem sempre menos capacidade
de definir sua independência total relativamente às criações de
Descartes, Spinoza e o empirismo.
32
Isso ocorre junto com pretensões que se tornam promeninentes, como
em Heidegger, de reunir num só a priori, como por exemplo o
cartesiano, o todo da "modernidade" até onde ela deve
anunciar o próprio reverso existencial, em todo caso desfazendo
desse modo a fronteira traçada em Kant e/ou Hegel. A posição
central do Poder puramente institucional, a cisão totalizada de
natureza e cultura, são as características da mentalidade do século
XVII que se mostram axiomáticas ao capital-imperialismo.
33
O liberalismo, cujo enunciado pioneiro enquanto teoria política
cientificamente endereçada, como vimos, dependeu do conhecimento do
homem americano suposto em estado de natureza, não progride
obviamente no terreno da confrontação de classes, onde o corolário
industrializante-modernizante, ao contrário, é a ditadura
proletária como o reverso desse equívoco que é confundir
liberalismo e revolução burguesa. Dois enganos interdependentes. O
liberalismo, inversamente a tais fantasias, progride na confrontação
ao capital-imperialismo, ou seja, no bojo da questão da
nacionalidade, semeado pelos processos de independência nas
colônias. Só alcançará a consistência necessária ao
enfrentamento das questões políticas lancinantes da atualidade,
quando elevar o seu potencial de questionamento à crítica dos
processos de estabilização nacional dos próprios países
considerados econômica e culturalmente centrais.
34
Um modo de vermos como a mentalidade do século XVII é axiomática
ao capital-imperialismo vigente, é a noção atual de que o
liberalismo realizado, a democracia constitucional na plenitude, se
define por um vazio na posição do poder. Aí já não se coloca o
monarca. Ora, eis o imaginário bem figurado da coisa, já que a
definição minimamente coerente implicaria na superação histórica
da "posição do poder" ela mesma. Um regime que não tem
referência qualquer ao correlato monárquico. É o que teria
caracterizado a irredutibilidade dos século XIX - ou, ao menos, do
XX - ao XVII. Porém a compreensão do estado de coisas pós-45 até
agora implica essa complexidade de que, por um lado, a americanização
do mundo, e já na arbitragem da cartografia do pós-guerras, impõe
a "democratização" como emblema das nações centrais.
Essa centralidade que expressa um cem número de coisas todas ligadas
à oposição do primeiro mundo às nações colonizadas, de modo que
"central", recalcado o enunciado da efetividade
imperialista como condição da Revolução Industrial, significa
agora a essência da contemporaneidade enquanto a realização
revolucionária unilateral. Mas, por outro lado, o cromo do
"Pós-Guerras" é enganoso ao extremo, uma vez que nele
apenas começa o cenário da guerra virtualmente planetária do
imperialismo, a partir da reordenação do domínio internacional
pelo fato do neocolonialismo afro-asiático constituído na época de
Nietzsche até o começo do século XX, ter ruído por novos
processos de independência nacional.
35
O novo cenário da guerra virtualmente planetária foi recoberto pela
definição do equilíbrio bipolar do capitalismo e comunismo. Porém
aí só se viabilizou o ensejo para o adiamento da questão liberal,
uma vez que o comunismo ditatorial não só é avesso ao seu
entendimento como também é um imperialismo alternativo ao
capitalista- tradicional. Eis um novo cromo, pelo qual se deveria
começar a redefinição do político. O capitalismo, especialmente o
neoliberalismo econômico, e o tradicionalismo não são antípodas.
Ambos e o liberalismo político é que são.
36
O século XVII não se limita ao cenário de total estabilização do
poder central requerido pela internacionalização monopolista do
colonial-escravismo. Se o liberalismo de Locke, ainda que exitoso do
ponto de vista histórico pela Revolução Gloriosa, não ultrapassa
a condição desse par de opostos - natureza e sociedade - que ressoa
com a por ele desacreditada antítese racionalista de extensão e
pensamento, e se o seu "parlamentarismo" não liquida o
rei, Bréhier lista alguns exemplos que provariam as "resistências
numerosas" sem precisar citá-lo. Na França, a unidade
religiosa só se estabelece ao preço de perseguições, e se a
Holanda serviu de abrigo aos proscritos e exilados, tratou-se de um
abrigo assaz precário, frequentemente ameaçado. A religião
católica rachou pela querela de jansenismo e molinismo jesuítico, o
misticismo do tipo Madame Guyon tornou-se negócio escandaloso. Isso
num cenário cristão já conflituado pela ruptura protestante.
Milhões de livros e libelos se espalham ao longo do século em favor
da liberdade e da tolerância religiosa. "As reclamações em
favor da liberdde e da tolerância não começaram no século XVIII",
na observação de Bréhier, mas já um século antes, finalizado na
controvérsia de Bossuet, defendendo o direito divino dos reis, e o
protestante Jurieu, que defende a soberania do povo.
37
Como exemplar da mentalidade do século XVII porém, Bréhier
estabelece o contraste de Maquiavel e Grotius. Enquanto para o
pensador renascentista, a soberania é o poder que só se pode obter
por meio da violência, meio de resolver os conflitos de forças
individuais que definiriam o real, para Grotius o que existe são
relações definidas de direito. Até onde se trata da definição do
"direito positivo" em suas relações com o "direito
natual", a concepção de Grotius segundo Bréhier não parece
destoante da de Locke, o que nos proporciona uma base bem qualificada
do pensamento do século XVII. O direito positivo é o acordo
puramente humano, e só há uma regra que o limita, o respeito ao
direito natural. Mas a recíproca é verdadeira dentro desses
limites, pois de direito o natural é a existência do direito
positivo.
38
Ora, a partir daí Grotius propõe uma consequência totalmente
oposta à regra natural de Locke, como a igualdade na existência,
autarquia da pessoa. Para Grotius, bem inversamente, são as
instituições geradas pelo contrato social o referencial do respeito
básico. Uma vez que Locke considera a autarquia da pessoa o fato
básico, o contrato social existe para restaurá-lo desde que uma
situação de dominação degenerou o direito natural, assim a
alienação do direito individual ou natural pelo comum ou positivo,
implica apenas o respeito a esse mesmo direito natural. Um juiz que
regula o interesse das partes num conflito está agindo no interesse
delas mesmas, ou ao menos da justiça contra a dominação de alguma
por outra. Grotius considera que a sociedade existe apenas para
conceder-se um soberano, assim este é o Senhor absoluto sobre os
súditos que são como seus escravos.
39
Bréhier considera pois ter definido o denominador comum do século:
"O direito não foi feito para tornar os homens independentes
uns dos outros, mas para ligá-los entre si". O espírito da
obrigação social, sob a premissa de que os indivíduos nada podem
sós, seria esse denominador comum, assim porém a potência que
ganhamos pelo liame social é um correlato do imaginário antes que a
providência puramente funcional pela qual se garante a vantagem.
40
A tolerência religiosa, conforme Bréhier utiliza como exemplo, é
reclamada com o objetivo de se apaziguar o conflito político, porém
não se admitindo que seja definida como liberdade de consciência
individual. Uma vez que todos preconizam, cada um ao seu modo, certa
base que não se pode tolerar, como o ateísmo ou a negação da
imortalidade da alma. Mas Bréhier não observa assim a
irredutibilidade entre, por um lado, uma concepção como a de
Locke, que na "Carta sobre a Tolerância" considera que o
ateísmo é inadmissível apenas na medida que o conceito de Deus
equivale ao da existência mesma, logo do laço social mesmo. As
particularidades da crença, como a imortalidade da alma, não são
consideradas. Por outro lado, Grotius, como prosélito da monarquia,
relaciona as particularidades como se fossem o fator gerativo do
fenômeno considerado, por aí o quesito relativo à alma integrando
a base exigível da crença.
41
Por essa oposição, podemos observar que o imaginário da legalidade
antes que ela mesma, é uma fórmula adequada para o século XVII
apenas enquanto consideramos os teóricos do absolutismo monárquico,
seguindo-se a Hobbes. Compreender a emergência da legalidade
pensável já aí, conforme constatável em termos do nascimento do
liberalismo como em Locke, é que se torna algo complexo na história
das ideias. E muito porque a partir da superação da voga
romanticista a tendência a escarnecer do liberalismo é
característica. Não obstante não se quer realmente dizer que o
sistema da legalidade não é o que emerge ao menos como
possibilidade, a partir do século XVII, ou seja, na superação do
limite da violência como conceito do político.
42
Ora, a irredutibilidade que assim seria o principal a recolher, entre
o Renascimento e o século XVII, começou a ser contestada algo
recentemente, como em M. Dobb ("A Evolução do Capitalismo").
O sintomático é ser Dobb justamente um representante da tendência
mais oposta ao liberalismo, a partir da contestação marxista da
autonomia da sociedade definível de modo independente da
problemática econômica estrutural. Não obstante o esperável dessa
posição ser uma trajetória culminante no formalismo das épocas
estanques, como no "As Palavras e as Coisas" de Foucault,
em subsequência ao marco estrutural althusseriano da ciência da
história marxista, Dobb mostrou que o mercantilismo, ou,
independente de haver a definição de um regime mercantilista na
economia, o capitalismo comercial colonial-escravista também
designado aventureiro, não define o primeiro momento do avanço
pós-feudal burguês europeu. As práticas predatórias do
feudalismo, que unem a fraude e a exploração racional contra a
propriedade agrária aristocrática, e a violência institucional
contra os pobres de modo a extorquir mão de obra, não mudam ao
longo dos séculos XVII e XVIII, relativamente ao que eram já
durante o Renascimento. Dobb faz eco a Pirenne, considerando o começo
dessas práticas há mil anos atrás, ou seja, entre os séculos onze
e doze, e desde então a Europa é sempre a mesma. As mudanças de
época são apenas na superfície do sistema capitalista, não na
base, e elas são definidas em função das classes capitalistas que
se alternam conforme novos componentes são introduzidos no mesmo
sistema, ou invenções determinantes de formas novas de exploração
se apresentam. A constante da mudança é pois o conflito entre os
capitalistas, de modo que os representantes dos antigos modos de
exploração vem a ser contestados pelos novos meios de exploração
do mercado.
43
Quanto ao Renascimento e período "moderno", não há pois
qualquer diferença muito grande em termos de épocas se o critério
for a base econômica conforme o critério de Dobb - ao contrário do
que decorre da análise foucaultiana sobre o mercantilismo. Uma
alteração substancial vem só depois, conforme Dobb, já na altura
do século XIX, sendo parte da história das máquinas como meio
concreto - efetivado já, pois, pelas invenções circulantes - de
redução dos custos da produção e aumento da produtividade, com
alijamento sistemático das ocupações artesanais. Porém o papel do
colonialismo na perspectiva de Dobb é ainda assim central, ao
contrário do que decorre da perspectiva estruturalista de Althusser
e Foucault.
44
Para o estruturalismo, o colonialismo não define o principal, o
fator estruturante que é o mercantilismo enquanto um modo do Saber
europeu restrito à sua conexão com a lógica de Port Royal, a
gramática suposta originária universal, e o fixismo biológico.
Todos são modos de representação em que já existe o conceito de
troca do conteúdo pela expressão, porém sem que o conteúdo mesmo
seja alterado como substância em si, ao mesmo tempo imutável e
relacionável ao todo fixo. O colonialismo não seria, pois,
estruturalmente diferenciante, entre o Renascimento e os
séculos XVII e XVIII. Mas isso não implica que não haja a
definição da diferença estrutural
45
Em Dobb, repetindo, não há definição dessa diferença em qualquer
instância. Como vimos, nele os dois períodos exibem formalmente
a mesma constante predatória capitalista sobre as demais formas de
acomodação econômica e sobre os direitos humanos com objetivo de
extorquir mão de obra a baixo custo ou a custo nenhum, e evitar por
meios brutais qualquer libertação possível por parte dos
explorados. Mas o colonialismo que se introduz no final do
Renascimento é conforme Dobb um componente intrínseco do
capitalismo em geral assim como a máquina o será ao ser introduzida
sistematicamente ao longo do século XIX. Assim o nazismo é definido
por Dobb como uma variante puramente colonialista do capitalismo, que
o praticaria no próprio espaço intra-europeu, mais ou menos como
nas ficções da dominação futura exclusivamente por meio de
máquinas. Ou seja, ambos são variações em que um componente da
estrutura se torna dominante, sem mudar a estrutura.
46
Porém ao contrário da ficção que não se preocupa com as
consequências ao apresentar uma hipótese sob o disfarce romanesco,
Dobb avança que se o nazismo é uma variante colonialista pura do
capitalismo, uma escola de economia recente considera apreensivamente
que uma fase fascista sempre se seguirá por toda parte se o
capitalismo continuar desenfreadamente. Uma vez que a tendência de
um sistema nacional realmente livre seria os salários subirem, e ao
mesmo tempo o monopolismo de cartel impor a pressão sobre o governo
no sentido de manter o privilégio econômico que agrilhoa os
salários pelo mecanismo da inflação, uma vez que não se pretende
reduzir a margem classista do lucro muito substancialmente maior que
o salário. Os interesses dos grupos monopolistas "exigirão a
dissolução do sindicalismo livre e o agrilhoamento do trabalho, o
reforço do monopólio com o braço da sanção legal e o uso do
poder do Estado externamente, para promover o controle dos
territórios satélites e a arregimentação de sua vida econômica
conforme propunha a Nova Ordem hitlerista na Europa" (Rio de
Janeiro, Guanabara, 1987, p. 381, 382).
47
Há que acrescentar hoje que a mola impessoal desse estado de coisas
definida como mecanismo de salário e lucro, implica uma consequência
inesperada, pelo que poderíamos esperar o mesmo fascismo ainda que o
regime de Estado fosse socialista, se a base econômica se mantivesse
segundo o modelo do progresso técnico, o que se traduz em
termos imperialistas por dependência tecnológica. O que já
é observável com a experiência brasileira recente do sindicalismo
partidário no governo, o que resultou no mesmo fascismo, uma vez que
por um lado os "sindicatos" são sempre mais função do
peleguismo que se articula com multinacionais monopolistas, não com
empresas livres, mas também ocorre que o favorecimento de empresas
nacionais pelo governo não reflete qualquer liberdade do
empresariado, e sim somente uma lei do cartel informal a partir da
arregimentação de interesses do governo central - que inclusive no
caso recente participava como acionista na pessoa dos governantes e
suas famílias. Ora, tais interesses não poderão jamais ser
realmente desarticulados do imperialismo internacional, de modo que a
vigência do regime "socialista" depende do quantum de
concessões anti-socialistas que possa manter segundo as
exigências das multinacionais.
48
Assim entendemos por que, não obstante o impeachment ter decorrido
contra a mera corrupção comprovada do governo suposto
"trabalhista", e como reação a um meio social de terror,
uma ditadura informal etária do "jovem" de bairro e de
intrusão ilegal-digital ("panopticum" de apartamentos
privados), meio social que estava assim cada vez mais ideologicamente
enclausurado pelo segregacionismo, prejudicado pela péssima
qualidade de produtos, serviços e atendimento, quando não se
tratava do tráfico de influências, além de estorvado pelas
práticas de extorsão econômica direta por incúria da lei, tudo
isso abundantemente denunciado na Internet por blogs e comunicados
textuais - devidamente sabotados na feitura mas em todo caso
publicados - houve protestos internacionais como se tratasse de um
golpe de Estado. Ao contrário, quando se tratou realmente de um
golpe direitista, em 1964, contra um governo meramente representativo
dos interesses nacionais, por parte de um grupo formalmente
ditatorial capitaneado pela CIA patrocinada pelas uniões
monopolistas internacionais, jamais houve protesto algum. Entendemos
bem que se as vozes do protesto internacional agora são de artistas
mais idosos da indústria fonográfica, que se dizem "amiguinhos"
dos atingidos pelos processos como se fosses eles heróis do ativismo
dos sixties, muito interesse por ibope decorre daí, além da
coalizão em torno das tiranias ilegalistas oriundas do crime
organizado, as máfias internacionais potencializadas pelo tráfico
milionário de drogas. Tiranias de fato que grassam nas cidades da
América Latina como nova deplorável versão do antigo marxismo
contra a organização social-legal, contra a discriminalização do
comércio de drogas, etc. Porém, além disso, os protestos denotam
que a articulação do business de mídia com o regime de dominação
do monopolismo multinacional, recolonização propriamente dita sob
a alcunha da "globalização", mostra uma divisão das
classes capitalistas, se os governos eleitos recentemente são
contrários ao partido corrupto que sofreu o impeachment antes de ter
factualmente perdido as eleições.
49
Mas uma consequência assim da previsão fascista do capitalismo em
geral, tal que ela atinja por igual aos regimes de compromisso social
desde que mantenham o modelo técno-progressista, já estava sendo
estudada por Warren Dean sobre o Estado Novo varguista, tese cuja
leitura crítica desenvolvi em meu "Riqueza e Poder, a
Geoegologia", recentemente publicado (2018). O termo
"geoegologia" implica pois o que considero a modernidade
como a mentalidade de um Sujeito (ego) geopolítico ("ocidental")
da história enquanto sujeito do Logos, a ciência e legalidade
contemporâneas. O marxismo não pode evitar ser mais uma
geoegologia, uma vez que radicaliza o imperialismo cultural como
condição do "progresso" científico-industrial. Mas
habitualmente, como ressaltei, o faz tornando o colonialismo
econômico apenas um acessório, não a estrutura da revolução
industrial que implicaria pois uma época, isto é, estrutura,
ulterior ao período moderno, ou seja, só a partir da
contemporaneidade como mentalidade evolucionista, ciências
independentes, classes assalariadas, independência das colônias,
etc.
59
Já a posição do colonialismo como um componente intrínseco do
capitalismo, assim como a máquina, reflete uma concepção de
mudança social informada pelos acontecimentos das guerras de
descolonização, sintomaticamente esquecidas pelas nossas
"esquerdas" tecno-progressitas. O marxismo já havia se
nacionalizado lá onde se tratava das forças da mera independência
política, e, assim, tendo ele que se ocupar com a organização
social como não apenas epifenômeno da luta de classes econômica.
Na perspectiva de Dobb, tanto o ora extinto mundo socialista, que
após 1945 era ainda o único rival do mercado internacional
americanizado, quanto os países do terceiro mundo na sua luta contra
a colonização, definem os dois fatores principais da época
histórica em meados do século XX. Porém Dobb não viu a
interconexão do terceiro mundo com o conflito leste-oeste, julgando
ingenuamente que os países do terceiro mundo que se tornavam
singulares por sua posição política e econômica emergiam
equidistantes e não comprometidos com qualquer dos lados. Assim, se
uma dose de otimismo liberal estava já contido nesse marxismo
pós-colonial - independente do que acontecia na Russia estalinista -
vemos que os motivos não eram bem a reorientação pela organização
social das liberdades civis e direitos humanos privados, ou qualquer
fé no keynesianismo do Welfare. Quando na verdade, ao contrário de
qualquer isolacionismo rousseauísta do terceiro mundo, o conflito
leste-oeste foi apenas o capítulo da reordenação internacional do
próprio capitalismo atuando no terceiro mundo sua tática de guerra
imperialista, sob o pretexto de necessária intervenção
anti-comunista nas guerras de descolonização afro-asiática e
movimentos de libertação econômica na América Latina e Oriente
Médio.
60
A aliança Estados Unidos, Europa e Japão estava pois completa como
uma estratégia imperialista já pós-colonial, na ocasião dos
golpes ditatoriais na América Latina, nos sixties, após o golpe no
Irã pouco antes, estes dois acontecimentos que foram o primeiro
exemplo de sua ofensiva no rumo do que hoje se estabilizou como
"globalização" recolonizadora. É manifesto que a
recolonização econômica segue um modelo de imperialismo cultural
como qualquer colonialismo histórico pós-feudal, de modo que o
retorno do jesuitismo na filosofia, com patrocínio de instituições
em publicações periódicas onde se aproveita muito do neokantismo,
especialmente Habermas e Gadamer, assim evitando-se existencialismos
mais extremos mesmo quando cristãos, e mentalidade absolutista
reinol que chega ao ridículo de condenar os filósofos
pós-socráticos como satanistas, está patente nos meios letrados de
expressão universitária desde o final dos anos noventa,
intensificando-se ao longo do período até agora.
61
A convergência desses grupos com a tecnologia digital é total, uma
vez que pelo monopolismo de multinacional computacional, atuando em
uníssono com o business de mídia, o domínio sobre a produção
cultural como sobre a consciência privada atinge a possibilidade do
mecânico. O interdito é sobre qualquer expressão, voluntária ou
involuntária, de que não se está gozando do estado do super-homem
pelo advento da tecnologia digital. Assim vemos que na previsão do
fascismo como consequência da intensificação capitalística, Dobb
acrescentou um retorno do feudalismo provocado pelo servilismo
imposto ao proletariado, como um novo período intitulável "era
da cavalaria, onde o poder armado seria adotado tanto como requisito
de todas as transações econômicas lucrativas quanto como fonte
daquelas encomendas estatais com as quais a indústria moderna
contava para seu perpétuo revigoramento". Mas a novidade da
previsão já devia estar contida nas estimativas aristocráticas de
um Nietzsche, cujas simpatias do "Renascimento" foram tão
importantes que literalmente criou o conceito histórico prolongando
a contribuição do seu mestre Burckhardt, assim como os Românticos
haviam antes criado o conceito de "Idade Média". Ora,
sobre a concepção renascentista de Nietzsche deveria haver mais
corrente definição quanto à escolha da ruptura ou continuidade do
antigo mundo pagão. A ambiguidade é notável. Por um lado,
Nietzsche é um neokantiano que inicia a teoria do inconsciente, a
ser retomada nessa interpretação histórico-filosófica pelo
pós-estruturalismo. Por outro lado, essa modernidade da trieb -
a "pulsão" elevada a "potência" - que teria no
frescor naturalista da Renascença um exemplo vivo segundo Nietzsche,
é apenas a mesma ética do senhorio dos bárbaros indo-europeus
assim como dos gregos dionisíacos. É um fato, ao que me parece, que
a interpretação do passadismo capitalístico como tendência
anti-liberal não tem motivo para deter-se no feudalismo, além do
orgulho historicista europeu assim como traduzido na Escola dos
Anais. É apenas forçado o limite da gleba, quando se trata do
comércio industrial e expansão monopolista planetária; ou do barão
feudal quando desde o século XVII se trata do Imperador absoluto.
Mas estes dois dados reunidos formam os componentes do paganismo
macedônico-romano como corolário das ambições dos impérios
antigos com seu movimento sucessivo do oriente ao ocidente. Ambição
que não dispensaria um receituário maquiavélico caso estivesse
disponível. Heródoto parece ter sido o compilador dos que
preenchiam essa função.
62
Quanto à conhecida versão do escravismo antigo como efeito do
desconhecimento da aplicação tecnológica da ciência, não merece
muito crédito após as constatações de Rostovtzeff a propósito do
uso dos manuais especializados e máquinas na indústria e cultivo
agropecuário antigo, por influência helênica. O uso da tecnologia
para açambarcar a liberdade de consciência e a privacidade a partir
da coordenação das possibilidades de emprego e concessões da
individualidade até a fabricação futura de clones, etc., é
coerente apenas com a ideologia do capital como um escravismo do
assalariado. Podemos entretanto observar que não apenas na história
econômica há um fator de continuidade entre o Renascimento e o
século XVII como um período em que o antigo Logos ao mesmo tempo
retorna e se transforma na moderna ciência experimental - e como
isso se fez é o que estamos visando apreender.
63
É patente que o imaginário absolutista não deixa de perseguir os
mesmos objetivos que Maquiavel expressava, mesmo se o Leviatã de
Hobbes seja uma soberania com mais poderes ainda, e todo o século
piedoso tenha horror do "prático-inerte" utilitário,
assim como na expressão de Sartre, porém não pelo a-fundamento da
subjetividade hegeliana, mas pela reificação teológico-cristã da
metafísica cartesiana. O fundamento da legalidade que tanto exploram
os teóricos políticos do século, é manifestamente contrária à
concepção do poder como simples meio nas mãos do homem, mas por si
só isso não parece autorizar o corolário que apreciam tirar os
historiadores críticos do liberalismo como quimera na presença do
capitalismo pleno.
64
Ou seja, para esses mesmos críticos, o corolário pelo qual o
século XVII é o século da razão emancipada, e, assim, eis o
fundamento da legalidade autonomizada inversamente ao poder imperial
total. Nessa contradição da historiografia contemporânea, vimos
que a controvérsia do racionalismo e empirismo resulta mais
importante do que se pretendeu estabelecer. Poderíamos traçar um
paralelismo entre a concepção socrática infantil das centuplicadas
recompensas e penas no além, relativamente ao delito, e a justiça
apenas institucional-correcional protagórica deste mundo, quando se
trata dos conceitos de tolerância dos absolutistas à Grotius e de
Locke, como constatamos. Porém é fato que, se somente no século
XVII, em sua presentificação pioneira, empirismo e racionalismo
estiveram juntos num mesmo cenário epocal, não há convergência
total do empirismo nos períodos de predomínio subsequentes, e
mentalidade liberal. Sobre isso, Bréhier é um dos que mais o
comprovariam. O período seguinte ao século XVII foi o predomínio
empirista, as Luzes do século XVIII, devido ao triunfo da física de
Newton, que se tornou congruente com o triunfo da filosofia de Locke,
beneficiada pela Revolução gloriosa que novamente, após a guerra
contra-espanhola, obteve a vitória, agora sobre o barroquismo da
côrte católica colonial.
65
Por toda parte na Europa "Iluminista" se desejava repetir a
Revolução de 1689, porém isso significava na mentalidade
Auflkärung clássica à Voltaire e Montesquieu, o desejo da
monarquia parlamentar, que faria conciliar a nobreza com o novo
regime econômico. Ao contrário, uma revolução "rousseuísta"
plena como foi a do 1789 francês, isto é, populista e "jacobina",
só reflete a mentalidade violentamente anti-Aufklärung, bastante
mística e passional, do pré-romantismo.
66
Aí a nobreza odiada era ao mesmo tempo a atitude
cientificista-classicista contra que se haviam armado as classes
populares, ironicamente com as armas ideológicas que aquela atitude
popularizara com sua pregação do "esclarecimento"
universal. Não contava ela com a possibilidade da recepção popular
da ciência e da filosofia das luzes naturais não ser passiva, e,
inversamente, assim que conquistasse a independência de espírito se
pusesse a proliferar meios de exprimir seus próprios valores, cujos
mestres não ultrapassavam os limites do clero cristão ou da
maçonaria. Nessa época estava ocorrendo, de Lessing em diante, a
transferência da função do êxtase, da religião para a arte, uma
vez que a certeza havia abandonado a tornura da fé que agora devia
apenas se contentar com um fundamentalmente humano insaber. Porém se
esse fenômeno coberto por Carpeaux é importante, também não
devemos esquecer que populismo e incerteza não combinam
verdadeiramente.
67
Bréhier cobre assim o influxo místico que invade o próprio terreno
da ciência quando, pela descoberta da física das forças como o
eletromagnetismo, e a Evolução, deixa de poder contar com o
universo-relógio fixista dos Voltaire. O século da máquina que foi
o XVIII se torna refutado pela ciência mesma, uma vez que seu
correlato natural revelava-se agora internamente animado como que por
potências vitais, em fluxo e podendo sempre reverter ao animismo,
como no universo de Schelling, cuja filosofia teosófica
influenciava então os diretores das políticas de saúde dos
principais estabelecimentos médicos alemães.
68
O Romantismo do século XIX expressa a revolução de Lessing na
arte, que agora contudo obtem do homem ele mesmo a fonte inalienável
do seu poder criador. O homem enquanto sujeito se faz o espelho do
mundo. Após Schelling e os Schlegel românticos de Iena, a filosofia
de Hegel desmistificou certamente a tomada de consciência da razão
histórica, impondo a cisão de natureza e cultura na ciência, porém
não sem corresponder à plenitude das palavras de Cristo quando
revelava ser ele a verdade. Na concepção de Hegel sobre a história
da filosofia, essa mensagem se realiza independente do riposte de
Pôncio Pilatos, com sua pergunta sem resposta sobre o que a verdade
é. O que Pilatos não apreendeu da mensagem de Jesus, é o que
podemos interpretar como a ênfase reveladora, o “eu sou”, na
frase “eu sou o caminho, a verdade e a vida”. O “eu” sendo o
correlato da revelação cristã como mensagem da salvação, mas
também como o referencial do sentido existencial.
A
historia da filosofia não se limita a sucessão de opiniões,
segundo Hegel, por isso que uma opinião é algo de externo, de
apenas possível, cuja veleidade é pois atingir "a"
verdade.
69
Se não podemos considerar que algum dentre todos os filósofos
atingiu "a" verdade, caso contrário a filosofia teria
acabado no ato, nem por isso se precisa limitar os filósofos que
proliferam na história a meros opinativos. Pois a "verdade"
é mais do qualquer generalidade metafísica. Ela é a expressão de
um eu auto-consciente em sua efetividade histórica, dessa mesma
efetividade. Houve pois um desenvolvimento ao concreto ao longo
da história da filosofia, até essa auto-descoberta realizadora da
mensagem cristã, que a transmuta entretanto, de simples conteúdo
sectário-religioso, ao saber absoluto, isto é, saber da
relatividade histórica imanente ao espírito subjetivo. Um saber
inerente à ciência emancipada.
70
A imanência é pois a "fenomenologia do espírito", a luta
dos escravos pela liberdade de sua consciência auto-realizada como
sujeitos pensantes, aqueles que conceituam o seu mundo em situação.
Mas como se sabe, posteriormente Marx desvinculou o momento pensante
do sujeito para reduzir a história imanente àquela luta, enquanto
Nietzsche desvinculou a mesma luta da verdade realizada de um sujeito
enquanto não pressuposto como espírito, e sim como potência
encarnada.
71
Entre ambas as inversões sucessivas de Hegel, o conceito da
realização história da modernidade como auto-conceito mudou
bastante. O determinante das mudanças é o que define a realização
por antinomia, isto é, o que não é ou ainda não está realizado,
as sociedades pré-modernas.
72
Na era romanticista, essa cisão criadora da Europa "para si"
é algo atenuada porque um dos fatores de impulsão do novo enquanto
Costituição, não apenas "parlamentariamo" como contrato
social, mas nacionalidade de sujeitos da emancipação legal, é a
independência colonial. Assim vemos que o romantismo, não sendo de
modo algum de predomínio empirista, coincide com o momento da
restauração absolutista, provisória, é certo, porém congruente
com um estereótipo possível - como o será o prussiano - da cultura
popular cristã em termos de restauração do baronato medievalista
ora conciliado com o Rei por direito de família. Não obstante o
romantismo conserva sempre uma possibilidade "revolucionária"
de suas raízes pré-românticas, assim sendo inventado na Alemanha,
é na França que da época de Hugo e Fourier em diante ele se tinge
do condoreirismo social que tanto influenciou a América Latina,
constituindo um primeiro e confessado influxo do pensamento de Marx.
Portanto podemos considerar que não obstante não empirista, o
nacionalismo místico romanticista contem fórmulas afins ao
liberalismo.
72
Mas na era positivista em que se produz o marxismo e a "ordem
social" do progresso tecno-científico à Comte e Spencer, ou
seja, desvinculado de qualquer injunção espiritual das "ciências
do espírito" e puramente objetivista, quando há o retorno do
empirismo dominante, trata-se da Revolução Industrial - ou seja, do
reapossamento das ex-colônias agora sob o sistema da dependência
industrial-tecnológica ou "imperialismo". Assim o
não-realizado, o primitivo, nada cria, é apenas um capítulo
ultrapassado da luta de classes ou da emancipação científica da
história.
73
Nietzsche e o simbolismo pós-positivista caracterizam um retorno das
ciências humanas que nasceram com o romanticismo, mas agora elas não
permitem a ordem progressiva dos Estados, como na fenomenologia do
espírito à Hegel. A imanência de cada sociedade no tempo e espaço
significa autonomia dos valores, originalidade cultural, porém a
cisão do primitivo e modernidade se faz mais forte ainda, porque
presume-se possível manter, mesmo no seio dessa pluraridade
ilimitada, a oposição do primitivo mítico e da sociedade
histórica.
74
Ora, o empirismo positivista não foi uma mentalidade liberal, bem
inversamente. Comte e Marx eram adeptos da ditadura para instituir a
revolução científica no plano sociológico ora pressuposto
objetivo. O Brasil é um exemplo desse fato, pois as lutas
anti-imperiais - isto é, pela singularidade local,
anti-colonialistas - dos românticos, era liberal e inclusiva da
pluralidade cultural, ao contrário dos revolucionários republicanos
do exército, comteanos que implantaram a ditadura do "marechal
de ferro" assim que expulsaram a monarquia. E ainda que Floriano
tenha ficado na história como o protótipo da política do
"progresso", ou seja, não ruralista nem elitista.
75
A ditadura do Positivismo, se faz pioneiramente um direito puro, no
sentido da forma vazia da lei à Kant. A forma pura, universal
independente do conteúdo, desse direito é pois o Saber realizado da
objetividade científica. Nós hoje estamos vivendo o cerne desse
desacordo, entre as concepção científica (positivista) e
culturalista (pós-positivista) da realidade. Ou esta se reduz ao
esquemas fenomênicos sempre iguais, que encadeiam componentes numa
ordem invariante, como do h2o resulta a água, do carbono a vida, ou
os valores que criamos para considerar a vida a obra de Deus, de nós
mesmos ou até do carbono é uma questão de liberdade, na
relatividade dos valores a que todos teríamos um direito fundamental
enquanto humanos, isto é, pensantes ou em todo caso autores e
intérpretes de nossa personalidade vivente. A aparente vantagem da
opção relativista tem sido sempre mais estorvada pelo mecanismo da
produção tecno-médico-científica que sustem toda a programática
do desenvolvimento econômico possível das nações contemporâneas,
logo, a qualidade de vida e consequentemente longevidade.
76
Foucault ("Vigiar e Punir", Petrópolis-RJ, Vozes, 1975,
p. 170 e segs.) caracterizou no controle da peste epidêmica,
ocorrendo no final do século XVII, o modelo da moderna sociedade
disciplinar. E o projeto benthaniano do "panopticum", a
prisão todo-intrusada pela visão do olho central, como
"encarceramento perfeito", a aplicação pioneira do
modelo. Mas não se irá negar que o controle da peste epidêmica
realmente significou a superação do estado caótico e a recuperação
da vida na Europa. Esse dilema está ampliado ao máximo para uma
gama sempre crescente de escolhas com a expansão dos saberes até
agora.
77
Não basta afirmar que um poder bio-social se exerce a partir da
intensificação das possibilidades de melhoria social oriunda da
medicina, que assim se converte em políticas governamentais
decretadas sobre os costumes. É preciso antes indagar quantos
trocariam a sua possibilidade de viver sem doença ou de ser curado
das que já contraiu, por uma liberdade duvidosa, na qual as massas
não creem porque não compreendem valores além dos que seus
pastores, padres e televisão tem a "função" de
esclarecer - como em Le Voyeur de Robbe Grillet, na interpretação
de Lucien Goldman, na inteira comunidade dos ilhéus, onde um crime
foi cometido, só quem se importa com o fato é o próprio criminoso,
pelo temor assim infundado de ser preso; ou no A Imortal, do mesmo
autor, como podemos considerar, o ato suicida de Leila é apenas uma
repetição indefinida, não um feito singular. É preciso indagar se
há justiça em condenar a estes apenas porque existem os que não
desejam a troca. O problema pois não está na troca em si mesma, ao
contrário do que Foucault parece pensar, mas na mentalidade com que
se distribuem as possibilidades de escolha assim que elas vem a
existir.
78
De nada adianta afirmar como Foucault que assim não são os pobres
os disciplinantes, mas a burguesia que lhe serve as lições. A
questão é a troco de que os pobres a saboreiam. Como de nada
adianta atribuir à psiquiatria e não ao rotulado louco a loucura
rotulável, se os remédios realmente eliminam os sintomas que
impedem a existência. O cerne da problemática está portanto em
configurar o que realmente é o correlato do regime. O
progresso técnico por si mesmo, a ser imposto como por um Dever-Ser
abstrato, ou a satisfação de necessidades conforme define a
modernidade os geopolíticos a exemplo de Ives Lacoste.
78
' O ponto sobre o qual uma crítica à sociedade disciplinar
foucaultiana deveria incidir é portanto aquele que refuta a
concepção de que a opção do Dever-Ser abstrato é o correlato
seja da legalidade constitucional, seja do que a embasaria como o
espírito empirista positivista, e ambos enfeixados num mesmo
atributo do liberalismo político em termos de hipocrisia
personificada ou "burguesia" - o contrário do aristocrata
tanto quanto do proletário. Assim o corolário foucaultiano contra
as intervenções do Estado na economia como agente anti-monopolista
por exemplo, a favor do neoliberalismo econômico que é porém
apenas a recolonização globalizada, com o agravante da mentalidade
de violenta segregação social para efeitos estupefaciantes de
intoxicação pelo fascínio do poder tecnológico via business
info-midiático tanto mais a concentração de renda dos "happy
few" se torna mundialmente escandalosa. O que constatamos porém
assim é que o capitalismo como projetos anti-constitucionais
anti-liberais, de fundo aristocrático ditatorial, tem sido o agente
do Dever-Ser tecnizante independente de qualquer utilidade médica
vigente, utilizando-a como a tudo mais para seus objetivos de
concentração de riqueza e poder. Um argumento mais forte em favor
da nossa concepção poderia ser a evidência de que o contrário da
burguesia hipócrita é o marxismo, que não foi criado no século
XVII e XVIII, nem é por toda parte considerado hoje "empirista"
enquantop teoria viva, e, não obstante, não há projeto de
totalização técno-científica mais radical do que o marxista. O
próprio estruturalismo é um projeto dessa jaez quando, como em "As
palavras e as coisas", Foucault cerceia toda ciência
possível ao que limita como o triedo biologia-linguística-economia
política, expulsando as "ciências humanas" do status
epistemológico que assim se atribuem. Como aí há um elogio
específico da psicanálise e da etnologia straussiana, que nada
deveriam aos conhecimentos sobre os primitivos eles mesmos, mas tudo
aos progressos intra-europeus da análise textual, não há muito que
duvidar sobre que o objeto quase-transcendental corresponde ao modelo
epistêmico estrutural.
77
O modelo foucaultiano da Vigilância em lugar de punição, com a
consequência da mudança autógena do comportamento do vigiado por
sua consciência de estar sendo visto e avaliado, seria pois o que do
esquadrinhamento do século XVII contra a peste se comunica à
aplicação oitoscentista penitenciária como um modelo que se
espraia depois a toda a sociedade, segundo Foucault. Ora, não há
panopticum generalizado como o corolário desse projeto benthaniano
na história, e, além disso, um modelo de vigilância total sobre a
vida privada normal seria anti-constitucional. Não quero dizer que
não seja o objetivo dos poderes capitalísticos, mas justamente eles
são exercidos hoje de modo para-legal ou francamente ilegal,
conforme esquemas possíveis de corrupção ilimitada. Ou seja, eles
são o contrário do que informa a legalidade constitucional.
78
O conceito foucaultiano da sociedade disciplinar se define em Vigiar
e Punir, como o corolário da mentalidade empirista-positivista, do
homem máquina Aufklärung de La Mettrie, à concepção
enciclopédica de que qualquer ideia de um ser humano pode ser
mecanicamente reduzida a uma origem definível na sua experiência
conhecida. Porém Foucault não observa que esse modelo empirista não
é o único que define a modernidade como espaço de séculos
histórico, como vimos. Ele é fortemente constrastado pelos
paradigmas romanticista do século XIX e culturalista do século XX,
sem que a marcha do progresso capital-imperialista
europeu-norte-americano-japonês se altere um milímetro. Também não
se poderia atribuir à mentalidade capitalística o espírito
positivista. Pelo contrário, o simbolismo traduz o momento em que
qualquer definição do capitalismo em termos de Revolução
Industrial na história pelo modelo da Revolução política francesa
deixou de ter aplicação prática, uma vez que se erguia o
imperialismo prussiano ditatorial, e a própria Inglaterra era agora
um império coroado vitoriano. A classe dominante europeia já não
se define como burguesia tout court, e sim como nova aristocracia
monopolista, com ou sem título de nobreza mas em geral
nobilitando-se por casamento, conquista cultural ou fortuna pessoal,
zombando dos filisteus empiristas da cultura e das Eleonora Rugby -
ou Roosevelt - campeões da livre iniciativa agora "pequeno
burguesa", os supostos jocosamente pelos monopolistas meros
"lonely people". E a opção pelo proletariado não se
fazendo sem o a priori hierárquico da vanguarda ditatorial do
partido, além do tradicionalismo passadista "comunitário"ser
a palavra de ordem culturalista "humanista". Nada disso
implica que a social-democracia, a economia de livre empresa e a
mentalidade dos direitos constitucionais tenham deixado de reunir as
notas do conceito "modernidade" histórica enquanto a
prerrogativa pioneira das sociedades europeias revolucionárias.
79
Além disso, Foucault erra gravemente em Vigiar e Punir, ao
considerar que a individualização na modernidade é função da
mentalidade empirista dominante a partir do século XVIII, que viria
se se afirmando desde a segunda metade do século XVII. Ou seja, que
ao contrário do que tratou como individualização tradicional,
exclusivamente aristocrática, produzida pelo crescendo de títulos e
propriedades atribuíveis, a individualização moderna seria o
produto da vigilância exercida sobre cada um a partir de pontos de
coalescência do poder de vigilância. Por exemplo, o poder de
vigilância sobre o comportamento dos reputados sem consciência,
como a criança e o louco, os individualizaria mais do que o pode ser
um adulto normal.
80
Porém assim Foucault esquece que não há subjetividade para efeitos
sociais e conceituais antes das constituições nacionais do século
XIX, quando o sujeito torna-se o referencial da legalidade, para
objetivos de direitos e juízo. Ao contrário, antes eram apenas os
estamentos, isto é, os grupos de origem - nobreza, clero, plebeus- o
referencial da legalidade. Assim havia três e não um só "estado"
como corpo de leis, valendo cada um para o grupo definido e não para
a pessoa particular, sendo esta julgada conforme a lei do seu grupo.
Além disso, é no mínimo duvidoso atribuir mais individualidade
justamente àqueles que são destituídos da autonomia jurídica
constitucional como a criança e o psicótico, uma vez que não tem
consciência do que fazem, não podendo atribuir a eles
responsabilidade por suas próprias ações.
81
Mas, quanto à questão do Sujeito na história, quando ocorre um
direito constitucional de sujeitos da nacionalidade por igual, na
revolução anti-estamental, não seria porque, ao invés da
"sociedade comercial" se ter "representado como uma
associação contratual de sujeitos jurídicos isolados",
conforme "a teoria política dos séculos XVII e XVIII", o
que ocorreu foi "na mesma época, uma técnica para constituir
efetivamente os indivíduos como elementos correlativos de um poder e
de um saber". A princípio podemos questionar aquilo mesmo que
Foucault está rejeitando, como um objeto válido de refutação, uma
vez que para ele, sobre a teoria política da época considerada
"muitas vezes se afirma que o modelo de uma sociedade que teria
indivíduos como elementos constituintes é tomado às formas
jurídicas abstratas do contrato e da troca". Ao contrario, como
vimos em Bréhier, o século XVII não considera os indivíduos como
os elementos constituintes, mas, ao contrário, como os pontos fracos
de um tecido social que não seria consútil se eles permanecessem
nesse estado considerado semi-animal. Essa é a era do estamento por
excelência. O contrato social não se faz pelos indivíduos
isolados, mas por uma "vontade geral" como na expressão de
Rousseau, a partir da constatação da inviabilidade do indivíduo só
na natureza. A situação que gera o contrato é pós-individual,
seja a guerra de todos contra todos (Hobbes), ou o estado de
dominação, como a monarquia totalitária ou escravismo (Locke), ou
ainda, a opressão de classe, como de grupos sobre grupos (Rousseau).
82
Além disso, não são as teorias do contrato social que informam a
constituição nacional ou Estado legal contemporâneo, que se
afirmou após a Revolução francesa, e sobre isso seria bastante
estudar a crítica de Hegel a elas. Se Hegel considera a ação
contratual meramente individual e não estatal, mesmo que o contrato
seja feito já pelo grupo, ele seria privado e não público, não é
porque Hegel considere que a sociedade até aí era mais
individualizada do que deveria ser, mas ao contrário, que a teoria
do contrato não apreende os fenômenos social e estatal. O
Estado não seria um produto da ação socializante, mas o
transcendental dela enquanto o seu telos e entelequia
- a terminologia aristotélica de Hegel em "A Razão na
História" é expressa. Mais recentemente os economistas à
Berle e Means colocam uma crítica nos seguintes termos. Não é
possível um contrato que cria uma sociedade, como uma empresa, uma
vez que para validar o contrato é preciso já haver a sociedade. Em
Hegel o corolário da crítica está em mostrar como o
desenvolvimento histórico dos Estados aportou à modernidade, ou
seja, a um Estado constitucional auto-conceituado, cujo correlato são
as ações dos Sujeitos. Esse Estado não se reduz à constituição
cosmopolita de Kant, pois não pode não ser nacional, uma vez que a
constituição traduz os valores culturalmente situados, o que Kant
desconheceu enquanto integrante das teorias do Sujeito que nascem com
as humanities na era romanticista, especificamente designada
em filosofia o "pós-kantismo". Até mesmo Marx considera
que as necessidades por exemplo, como critério dos salários, são
relativas a tempo e lugar, inversamente a um critério geral de
fórmulas econômicas que ajustam salários, preços e lucros. É
oportuno notar que na recolonização globalizada retornou o problema
dos românticos em torno da autonomia cultural da nação
constituída. A cultura histórica irredutível uma à outra é
basicamente construída na história da língua, e o Romantismo é o
termo que deriva de Romanço, as línguas nacionais europeias
formadas na miscigenação do latim e bárbaro local. A língua não
se reduz, pois, a gramática, mas se singulariza pelo léxico e
formações populares. Ora, no Brasil o romantismo correspondendo à
pioneira afirmação da nacionalidade independente, sofreu a oposição
do partido colonizador que criticava a literatura nacional por ser
ela veiculada na língua portuguesa - assim não poderia ser nacional
mas apenas derivada da literatura de Portugal. O processo literário
brasileiro estava apenas começando nessa época sem se deter por
isso, mas o fato é que sendo um país muito prejudicado pelo
imperialismo, as classes acadêmicas geralmente patrocinadas por
interesses de embaixadas estrangeiras, as classificações de
modalidades da língua sempre são excludentes dos extratos não
redutíveis ao português internacional. Silvio Elia por exemplo,
classificava em modalidades distintas os usos da língua "familiar"
e "popular", referência que constatei pessoalmente ainda
usada nas faculdades de letras. Vemos assim que desde o romantismo as
tentativas de produzir gramáticas e dicionários próprios esbarram
na resistência mais obsoleta do ponto de vista das concepções
linguísticas atualizadas. Na atualidade, quando já se estava muito
consciente do atraso, ao contrário da previsão o que ocorreu foi
uma unificação por decreto do Português internacional, fruto do
óbice geoegológico da censura acadêmica.
83
A modernidade é pois a emergência do Sujeito pensável, da
constituição visando a cisão do público e privado como fundamento
da legalidade. Um critério da legalidade é pois produzido, não
apenas a lei imposta por instância do Poder, mas a legitimidade
correlata à regulação da reciprocidade nas ações coletivas, uma
vez sendo o critério a igualdade de status dos sujeitos da
nacionalidade constituída. Não há pois legislação do privado, a
"legalidade" é formalmente oposta ao "costume".
Como espero ter ficado claro, não há razão para reduzir a
Subjetividade pensável a um individualismo mecanicamente produzido
por técnicas de saber-poder, uma vez que a problemática conceitual
em que ele emerge é a questão da cultura histórica, na exaustão
do modelo do primitivo como homem natural, pré-social, ele sim o
indivíduo isolado impossível de manter-se como tal isento dos
conflitos que fazem nascer a ordem social. Uma exaustão
compreensível na decorrência do homo americano estar agora
produzindo sua independência política. A oposição dos termos
indivíduo (natural) e sujeito (cultural) é o cerne da revolução
cultural da contemporaneidade. Assim uma série de questões podem
ser recolocadas com relação ao ambiente do século XVII, que não
era distintamente empirista sem ser mais caracteristicamente
"racionalista", nem por isso tendo atingido a revolução
subjetiva do pensamento. Muito menos a História como ciência.
84
O curso dessas indagações que convergem na pergunta sobre porque o
período pré-contemporâneo imediato não atingiu o Sujeito
pensável, não se beneficia muito de Bréhier. Mesmo se o
racionalismo e o empirismo fossem paradigmas "ideístas" já
no sentido de explicações das ideias em termos de "representação"
mental, o período não produziu qualquer teoria do Sujeito,
permanecendo limitado ao modelo do "Intelecto" universal
cuja epítome é o transcendental kantiano.
85
Se Bréhier é muito aplicável para desfazer a confusão do
contrato social com individualismo, deixa de o ser na problematização
das relações entre a descoberta do homo americano, e a concepção
de natureza que vai abarcar a cisão do ideísmo - isto é, a redução
da Razão às ideias porém já enquanto representações da mente -
entre racionalistas e empiristas, liberais ou não. Retornaremos a
essa problemática, que subsiste independente da caracterização de
Bréhier do século antidindividualista. Ora porque essa não é a
única opinião a propósito da sociedade da época, como se pode
constatar pela introdução dos Pensadores ao volume de Pascal (São
Paulo, Abril Cultura, 1976, p. XVI), onde se considera o século XVII
como o momento de superação das três noções básicas medievais,
de cosmo, comunidade e autoridade do saber religioso, de modo que a
geometrização do espaço infinito e o racionalismo teriam criado no
plano social as ideias do liberalismo à Locke e "sobretudo, a
de isolamento ou de auto-suficiência individual". Lucien
Goldman é aí citado numa referência que esclarece a fonte que
vimos Foucault supor refutar. Porém Goldman pronuncia-se
exclusivamente sobre o "terceiro estado", isto é, o
estamento plebeu dos burgueses, artesãos, operários e camponeses,
que no século seguinte fará a Revolução na França. Segundo ele,
"o Terceiro Estado desenvolveu progressivamente" ao
contrário da hierarquia aristocrática "indivíduos isolados,
livres e iguais, três condições inerentes às relações de troca
entre vendedores e compradores". Ora porque, quando à
filosofia, não seria válido descartar a interpretação de um
Heidegger, ao situar Descartes como a introdução da metafísica da
subjetividade enquanto a priori da modernidade em geral, ainda que
Heidegger não queira dizer que não tenha havido a necessidade do
Romanticismo para completar a revolução subjetiva em termos não
apenas do intelecto individual mas do sujeito histórico. Antes porém
de tratar a problemática que posicionamos com a pergunta sobre o
porque dessa necessidade, de modo que o século XVII,
antiindividualista ou o contrário, em todo caso não alcançou o
Sujeito pensável, conserva-se oportuno manter o foco na maneira como
Bréhier trata o dilema de ruptura e continuidade do século XVII e
Renascimento. Ora, efetivamente uma ligação entre Maquiavel e
Hobbes, assim como entre ceticismo, epicurismo, estoicismo, e os
ideístas do século, se reporta naquilo que seria pois um domínio
exclusivamente cristão do pioneiro pensamento científico
experimental europeu. Um exame da história dos conceitos torna-se
pois essencial.
II
1
A oposição do século XVII a todo individualismo é a
convergência pela qual Bréhier une numa só intenção os mais
variados representantes das posições religiosas que aí se
afrontam. Em geral constatamos três opções entre as várias
tendências que Bréhier arrola:
a)
Os seguidores de Maquiavel representam o ceticismo de livres
pensadores que preconizam uma religião de Estado, correspondendo à
professada pelo Rei. Entre estes Bréhier situa Hobbes e James
Harrington que atribuía à Igreja estatal a função de controlar a
formação do clero nas universidades. A proposta de unidade da
religião nacional-legal exclui portanto a concepção da tolerância
relativa a diferenças individuais ou grupais, que tornam ao estatuto
de hereges, mas agora pioneiramente sendo encarregada a polícia
civil da punição desse delito, ao invés de, como na Idade Média,
um comando repressivo da própria igreja.
b)
Os religiosos de coração, inversamente, são os que pregam a
tolerância religiosa, mas eles estão divididos em duas posições
possíveis. Aqueles que pregam uma religião natural, o deísmo que
será dominante no século XVIII lado a lado com o anticlericalismo,
tem no XVII por exemplar a obra de Herbert de Cherbury, assim também
a de Locke. A religião natural seria composta de verdades simples,
as mais básicas e supostas comuns a todos os entes racionais,
desvinculando-se das noções adventícias. Posição parecida com a
religião natural é a dos socianianos, seguidores de Sozzini, um
neoarianismo que prega a humanidade desdivinizada de Cristo, negando
a trindade e outros sacramentos católicos; e a dos armininianos, que
praticam desmitificações parecidas do dogma. Inversamente à
religião natural ou simplificada, há aqueles que pregam o livre
exame das Escrituras, conforme o espírito da Reforma protestante,
porém Bréhier mostra como o resultado esperado é o contrário do
credo individual, um consenso geral a obter-se pelo desprezo de tudo
o que se poderia designar pela expressão do católico Bossuet. A
saber, as "opiniões particulares" e as "variações",
visando a "catolicidade" - que como se sabe, é um termo
que significa "universalidade".
c)
Seitas místicas como a dos anabatistas na Alemanha e a mentalidade
dos meios religiosos ingleses, pregaram a tolerância inversamente à
religião de Estado, mas também não visando crenças determinadas
que fossem além do sentimento da fé, o dom pessoal do Espírito
Santo. Aí vemos como se trata de um paralelismo com o básico
almejado pela religião natural, porém que se originaria apenas no
sentimento. Ao mesmo tempo de foro íntimo e universal. Os
anabatistas são seguidores de Munzer, o luterano rejeitado por
Lutero por ter socializado a sua pregação em prol da revolta
camponesa contra os "príncipes intolerantes" na expressão
de Bréhier. Os meios ingleses veiculam pois a concepção de um modo
mais nítido por isento das implicações da revolta alemã. Trata-se
da noção de um Estado laico, completamente independente da
religião.
2
Na verdade a tripartição de Bréhier a partir porém da
característica comum do anti-individualismo e da chamada ao
consenso, é um feito notável do nosso caro historiador das ideias.
O que o século XVII ostenta de mais proeminente é uma série de
cisões profundas no interior daquilo que até aí havia sido a
unidade religiosa cristã.
3
A princípio, a história do próprio século se expande desde a
afirmação do cisma no interior do cristianismo, em escala
geopolítica. À Reforma que triunfa nos países que então se tornam
protestantes, se contrapõe agora a Contra-Reforma e o reformismo
católicos. O estilo barroco e todo o pendant ultra-religioso
do século estão impregnados do espírito da reação católica, com
as consequências internacionais ligadas ao jesuitismo colonial. A
política secular torna-se o reflexo das perseguições da reação
religiosa a todo humanismo renascentista - o antropocentrismo e o
cultivo dos estudos leigos ligados à filosofia pagã. Uma rejeição
da filosofia pagã ou meramente dos referenciais não originalmente
cristãos, que não foi porém apenas católico, mas observado por
toda parte, como na censura de Comenius à maior parte da filosofia
além do platonismo e alguns moralistas romanos, e do cético cristão
La Mothe de La Vayer a propósito dos próprios Platão e
Aristóteles. Essa rejeição da erudição, que atinge o paroxismo
em Malebranche, seria compreensível se limitada aos meios do
desenvolvimento científico, como em Cavalieri, Fermat e Harvey,
cujas descobertas nada deviam a "verdades" filosóficas
universais. Porém era de fato defendida, conforme Bréhier, mais
por um temor geral das discussões sectárias consequentes à escolha
individual das filosofias, o que era sentido como uma ameaça ao
consenso, científico ou religioso, assim como à serenidade dos
espíritos que a ele devem aderir. Essa rejeição abrangia repúdio
aos estudos do grego, atitude comum a Comenius e Locke. Conforme
Bréhier: "Os estudos clássicos reduzidos, ou quase, ao latim,
não visam nada além de formar o gosto literário, ajudar, por
fórmulas bem batidas, a educação moral, e introduzir o hábito da
língua científica corrente: é o que Descartes reteve de seus
estudos clássicos entre os Jesuítas, isto é, nada que pudesse
servir à formação filosófica".
4
Além disso, o jesuitismo significa o aristotelismo tomista,
representado exemplarmente por Suarez, como doutrina oficial dos
Impérios coloniais católicos. Assim se originam os dois conflitos
marcantes do século, já não diretamente de catolicismo e
protestantismo, mas do papado de inclinação jesuítica com as
tendências modernas no interior da sua própria igreja e nação. Na
França, o conflito de jesuítas e jansenistas, por um lado. E também
as perseguições brutais e homicidas da Inquisição, que abrangem
não apenas consideradas heresias religiosas mas a pesquisa
científica e as ideias filosóficas, aí provocam um conflito
crucial. Pois entre estas últimas estabiliza-se a oposição frontal
da igreja contra a mais importante, a filosofia de Descartes - além
do empirismo, contudo a salvo do inconveniente por originar-se nos
países protestantes. Em Portugal o empirismo é doutrina proscrita,
que só se apresenta, ainda que de modo distorcido ao extremo, no
século seguinte.
5
A consequência da estatização religiosa nos impérios coloniais
católicos, como vimos, é o pioneiro encargo da censura à polícia
pública, e Bréhier observa como na França, diante do imenso
sucesso mundano do cartesianismo, "os teólogos e peripatéticos"
convenceram o poder real e o parlamento de que se tratava de ameaça
à ordem política - esse mesmo parlamento que logo depois terá as
atividades suspensas, ficando assim até a Revolução o reativar.
Foi desse modo entretanto, que a doutrina de Descartes foi proibida
segundo Bréhier, "não como antes a de São Tomás ou de Siger
de Brabant, por um poder espiritual", mas por um poder de
Estado. Vemos aí a ironia, já que se antes o peripatetismo fôra
censurado pela Igreja em qualquer das suas defesas, à Brabant ou São
Tomas, agora estava habilitado como a doutrina oficial da Igreja, e
por isso, do mesmo modo que antes, com poderes de cassação a toda
alternativa praticada.
6
Bréhier registra a anedota segundo a qual Boileau, prevenido de que
o Parlamento de Paris estava a ponto de decretar a proibição de
todo mero ensino, independente das questões de adesão, de filosofia
que não a de Aristóteles, publicou um panfleto intitulado
"Cassação Burlesca" ("Arrêt Burlesque") que
dissuadiu os poderes públicos da censura total à simples menção
de filósofos não peripatéticos.
7
Aqui não seria o caso de seguirmos os pormenores do drama
jansenista, que se conduziu à solução da força com a consequência
da resistência mais comovente, nem por isso granjeou vantagem ao
jesuitismo. Bem inversamente, como se constata pelo envolvimento de
Pascal, toda a França apoiava Port Royal e indignou-se com a medida
coercitiva contra os pobres acetas solitários inteiramente dedicados
ao seu claustro, e os jansenistas eram tipicamente adeptos de
Descartes. Porém o temperamento entre o epicureu e o estoico do
século - que Carpeaux reduz à influência moral onipresente de
Sêneca e Tácito - parece bem exemplificado pelo conselho de
Gassendi, colhido por Bréhier, ao perseguido Galileu: "Estou na
maior ansiedade pela sorte que vos espera, ô vós a grande glória
do século... se a Santa-Sé decidiu qualquer coisa contra vossa
opinião, suporta-o como convém a um sábio. Que vos baste estar
vivendo persuadido de que não procuraste nada além da verdade".
8
Para Bréhier, com efeito, se a filosofia do século XVII é imune à
paixão sectária que agitava a Renascença, pelas discussões em
torno dos antigos filósofos gregos, a ciência da época repete o
desprezo que na Antiguidade mesma Arquimedes, Apolônius ou Heron de
Alexandria nutriam pelo estoicismo. Nada das teorias do conhecimento
platônicas ou aristotélicas da Idade Média, ou da prática
dialética visando verificar o acordo ou desacordo entre as opiniões,
se conserva útil a esse surto de progresso nas matemáticas e
ciências naturais. Antes que nas Universidades, os meios
intelectuais novos, filosóficos ou científicos, são formados em
círculos privados, como a sociedade de sábios e filósofos em torno
do padre Mersenne da ordem dos Mínimos, o correspondente epistolar
de Descartes, a academia de Ciências na França, a Academia de
Lincei na Itália, e a Sociedade Real em Londres. Ao invés dos
gêneros dialéticos e didáticos, a filosofia abandona todo aparelho
técnico de exposição, e utiliza gêneros exclusivos como os
ensaios, meditações, diálogos, formas literárias humanizadas tais
que para ler O Príncipe de Maquiavel, Descartes aconselha a recepção
do texto como um romance.
9
Ora, não obstante, alguns dos seguidores de Descartes estudados por
Bréhier são platônicos que veem no cartesianismo uma retomada de
Santo Agostinho. As semelhanças entre o percurso da dúvida
cartesiana e agostiniana são evidentes e já não necessitam glosa.
Como se sabe sobejamente, elas não eliminam contudo a transformação
crucial do primeiro - Se erro, sou - ao segundo, o Cogito pelo qual o
corolário da existência implica já, mais do que a augustiniana
visão das ideias em Deus, essa mesma visão como ato da mente do
Homem. Justifica-se não obstante, de certo modo, a interpretação
platônica do cartesianismo, porém Bréhier não se detem nela,
mostrando que correntes muito desiguais logo se apoderam do espaço
livre a essa interpretação pelo peso da contribuição cartesiana.
10
Assim também a complexidade do século se deixa apreender pelo
desdobramento pascaliano do jansenismo. Pois, como vimos, se a estes
Bréhier demonstra tão cartesianos que seções inteiras da
Logique são transcrições das Regulae, o
ultra-jansenista Pascal é no entanto convicto e expresso pensador
anti-cartesiano. A meu ver, para uma perspectiva não apenas
introdutória ou acadêmica do século XVII, Pascal é o referencial
mais adequado. Ao tornar à problemática do século XVII
especificamente tomada com relação à questão do Sujeito, como
acima delineamos, o examinaremos com maior minúcia, pois nele se
encontra a propósito o principal. Por ora resta observar uma
tendência que parece poder ser definida. Os intérpretes do século
XVII como anti-individualista são os que mais destacam a ambiguidade
quando se trata da decisão sobre ruptura ou continuidade
relativamente ao Renascimento, de modo que independente da grande
originalidade do século, fatores da tradição renascentista
persistem. Enquanto os que o pensam como berço do individualismo
moderno, ao contrário, destacam o mais que podem os aspectos da
ruptura mais completa. Um adepto da continuidade, porém radical, é
Carpeaux. É algo jocoso, porque ninguém como Carpeaux tem tanto o
gosto da complexidade ao tratar de não importa qual época, mas
assim quando é o caso do barroco, coincidem de fato a forma e o
conteúdo da crítica, o barroco sendo o estilo da antítese
triunfante em literatura. O barroco, porém, Carpeaux reduz
convenientemente, como podemos ver no seu tratamento de Cervantes,
ao problema das relações entre naturalismo e idealismo. Como
poderíamos colocar, entre visão realista do mundo, nascendo com o
progresso da ciência natural, e independência da fantasia coerente
com o aventureirismo personalizado na ascenção econômica da
burguesia e autonomia crescente do Terceiro Estado. Essa questão tem
desdobramentos importantes na crítica moderna, de modo que por um
lado, alguns como Unamuno pensam que Cervantes valoriza o idealismo,
já reduzido a mera fantasia individual, mas assim alçado à
nietzchiana gênese interpretativa do mundo, enquanto outros como
Menendez e Pelayo ou mais ainda, Américo Castro, o consideram um
realista satirizando a fantasia ingênua do ideal. Ora, o próprio
Carpeaux apenas utiliza Cervantes como um exemplo do "antibarroco"
que seria uma corrente poderosa dentro do próprio barroquismo. A
lista resulta impressionante, definindo o mapa da continuidade
subterrânea do Renascimento pagão no século da "política
cristã", assinalando o maquiavelismo antiaristotélico em
termos da rota mais segura ao século XVIII tão anticlerical como
classicista antibarroco. O que na linguagem de Carpeaux significa
"antiespanhol" na mesmíssima razão que
"antiimperialista".
11
A essa altura nenhuma conotação civilizacional positiva pode já se
ligar ao colonialismo. Nada sobrevive da propaganda jesuítica do
dever de pregação cristã aos gentios índios. Muitos cristãos
célebres do século XVII como o fervoroso católico Pascal são
delatores contra o horror da Inquisição e veementes acusadores
dela, tornando-se portanto antijesuíticos de coração. O
Iluminismo, mesmo no seio da Igreja, irá denunciar a colonização
na América como capítulo de crueldade insana, escravismo bárbaro
anti-cristão e anti-humano.
12
O referencial renascentista é aí importante não só pelo humanismo
à Erasmo, agora arma contra o aristotelismo clerical teocêntrico,
mas porque a política maquiavélica é nacionalista, contra o
internacionalismo medieval da Igreja Católica, porém uma qualidade
que tem nesse momento compreensivelmente nova ressonância, quando a
nação europeia se converte no internacionalismo do Império
Colonial.
13
Imperialismo que é pois o significado de "política cristã"
como aristotelismo aplicado pela pedagogia colonialista especialmente
espanhola contra as fontes renascentistas, na linguagem de Carpeaux
(p. 736).
14
Mas assim o problema da definição do século XVII como época se
comunica a outro, qual seja a da compreensão da unidade epocal do
Renascimento. Pois como conciliar o humanismo liberal de Erasmo com o
pessimismo político semelhante ao descrédito soreliano da razão
comum, de Maquiavel, e este capaz de influenciar as esperanças
místicas ou esclarecidas dos revolucionários do século XVIII? Não
há dúvida de que esse é o caminho delineado em Carpeaux, com o
maquiavelismo sendo a ponte antiespanhola, anti-filípica, que em
seguida se transformará em predomínio francês à Richelieu, isto
é, já classicista ao invés de barroco: "O maquiavelismo
antiaristotélico tornou-se a doutrina pela qual o absolutismo
francês preparou a ascenção" da "burguesia" já em
seu novo status de "elite", por meio da influência de
Campanella. Geralmente apresentado nos manuais de história da
filosofia no período Renascentista, Carpeaux inversamente o coloca
na Vanguarda do antibarroco do seiscentos. Campanella tornou-se "por
vias clandestinas, o conselheiro de todos os príncipes antiespanhois
da Europa", contudo encarcerado e martirizado por vinte e seis
anos como conspirador, enquanto Gabriel Naudê na França teria feito
a ponte dele até Richelieu (p. 752, 3). Aí anti-espanhol tem um
sentido preciso. Não contra a nação mesma, e sim apenas contra a
monarquia barroca, isto é, aristotélica jesuítica de Filipe, já
que Carpeaux a considera a antítese do que teria sido o reflexo do
Renascimento na Espanha, a monarquia anterior de Carlos V, humanista
erasmiana. A contraposição dos dois reinados é exemplificada
maximamente na política colonial. Bartolomeu de Las Casas, autor do
impressionante marco histórico "Brevissima relación de la
destruycion de las Indias", uma vez que assinala a mudança na
concepção europeia da margem, ao invés de povoada por monstros
fabulosos que cumpria subjugar, terra de populações aborígines que
estavam sendo barbaramente genocidadas quando não roubadas e
escravizadas, por um lado, é a ressonância da política humanista
de Carlos V, protestando contra a crueldade e pregando a defesa do
direito natural dos gentios. A pregação de Las Casas forçou
providências burocráticas por parte do império, tendo sido
favorecida pela criação do Direito das Gentes por Francisco
Vitoria. Porém as providências não foram realmente decisivas,
posto que logo depois a pregação aristotélica contra-humanista de
Sepulveda, representando a monarquia barroca, tornou a interpretar o
imperialismo espenhol como cruzada cristã.
14'
Mas assim, quanto à trajetória que Carpeaux estabeleceu do barroco
espanhol ao classicismo francês como uma espécie de fio vermelho
maquiavélico renascentista, como "antiespanhol" o
maquiavelismo já tem um sentido modulado pelo novo século. O
pessimismo político conjugado ao cultivo da disciplina necessária,
para conquistar a Fortuna como poder pessoal e se livrar de
complicações, se torna otimismo dessa praticável virtú
contra o barroco religioso pessimismo deste mundo enquanto meramente
oposto ao divino.
15
Na lista de Carpeaux assinalando o mapa da continuidade
renascentista no seio do triunfo aparente do barroco espanhol
seiscentista, e o caminho até o cenário Richelieu, Saavedra Fajardo
é pareado ao humanista Ludovico Vives (p. 748). Cervantes é o
continuador de Erasmo (p. 742). Quevedo o é de Justo Lipsius e do
Flamboyant tardo-gótico, sendo o nosso Gregório de Matos rotulado
quevedista (746, 744). O célebre Balthazar Grácian estaria apenas,
como um jesuíta rebelde à Companhia, "retomando o
maquiavelismo aristocrático da Renascença". É nele que a
ressignificaçaõ do Maquiavelismo como cultivo da virtú
contra os azares da natureza humana se completa exemplarmente. Outro
"jesuíta rebelde" é o nosso conhecido Padre Antonio
Vieira (p. 750), que alia a "um liberalismo à maneira de
Saavedra Fajardo" o "patriotismo à maneira de Quevedo".
Já o fecundo escritor português Francisco Manuel, protagoniza em
seu "Hospital das Letras" a revolta portuguesa contra os
espanhois (p. 751), movimento que traduz uma "revolta ideológica
geral" e cujos protagonistas foram italianos, herdeiros do
Renascimento. Assim na sátira citada de Francisco Manuel, Boccalini
é visto como interlocutor, junto de Lipsius e Quevedo. Boccalini
como secretário de Apolo convoca um parlamento para resolver os
problemas atuais, e aí "o teórico antiaristotélico Ludovico
Castelvetro insitua ao deus as resoluções mais mordazes contra as
letras barroca". Já ao padre Paolo Sarpi foi atribuída uma
obra anônima de 1615 que propunha meios da República de Veneza
defender-se da cúria jesuítica romana. Sarpi publicou do próprio
punho uma anatiaristotélica "Istoria del ConciliioTridenino",
argumentando que o concilio de Trento não foi inspirado pelo
Espírito Santo, e que "tornou-se arma poderosa das monarquias
absolutas na luta contra o papado", servindo "ao
galicanismo francês e à luta antijesuítica do século XVIII".
16
No todo o "Antibarroco" seiscentista é definido como
conjunto complicado de motivos maquiavelísticos, antiaristotélicos
e místicos". (p. 755) Já como poderíamos aproveitar dos
estudos sobre Pascal, o problema da interpretação de Cervantes é
utilizado por Carpeaux para demonstrar um barroquismo não tanto
quixotesco como mais o das Novelas Exemplares conforme a
interpretação de Casalduero. Idealismo de um súdito ortodoxo da
monarquia colonial espanhola, "estritamente conforme a moral
servera e aristocrática da Contra-Reforma", não obstante a
convicção erasmiana de Cervantes segundo Carpeaux.
17
Não há contradição aparente, já que o Renascimento mesmo
contivera um elemento idealista que apenas se acentua ao adentrar-se
a obra nas consequências do imperativo do barroco enquanto estilo
secular e ortodoxo nacional (p. 742). Mas na verdade a complexidade
do barroco, como seu acúmulo da erudição e abuso da antítese mas
apenas para exaltar o idealismo além do mundo, aparece redutível em
Carpeaux ao limite da realidade. O fracasso de ambos os lados, dos
espanhois barroquistas pela resistência antiaristotélica tanto como
pela derrota na guerra contra a Inglaterra; e dos antibarrocos pela
repressão que sofreram todos por parte da monarquia católica ou
mesmo pela sua oposição ao que fôra afinal a mentalidade vigente.
18
A antítese não me parece resolvida, ainda assim, ainda que Carpeaux
ele mesmo considere uma primeira fase cervantina platônica à Leone
Ebreo, uma segunda fase realista e uma síntese humanista de um
idealismo da fé pessoal, que se sabe ilusória mas intransponível
por meios humanos até um saber que não seria produto apenas da
"teimosia dos fatos" quando se abatem contra as caras
esperanças. A propósito das desventuras da inteligência do fidalgo
louco no Don Quixote, como na confusão de uma bacia de barbeiro com
o elmo de Mambrino, a síntese já estaria expressa: "Eso que a
ti te parece bacia de barbero, me parece a mi el yelmo de Mambrino, y
a otro parecerá otra cosa" (p. 740, o grifo é meu).
19
Porém aí vemos menos uma síntese e mais o predomínio de um
platonismo modernizado que poderia se traduzir na idealização de
Pascal a propósito do único meio do homem sobrepor-se à sua
natureza infame e odiosa, que não é porém um meio humano, é
somente Jesus Cristo intervindo em favor da fé como ela mesma a
graça. Essa antítese não parece portanto com a simples
concatenação, à La Rochefoucauld, onde não havendo nada além da
sorte como acaso natural, e dos egoísmos como inerência dos
interesses humanos, cumpre porém ajustar-se a esse mundo conforme um
puro cálculo das conveniências.
20
Ora, desse modo o claro-escuro barroco, como a complicação
antitética cujo fundamento é o contraste de natureza e
transcendência no interior do homem religioso, complicação
estilística sempre tão magistralmente utilizada por Pascal e o que
o faz desprezar aquilo que também Carpeaux designou a hipocrisia de
um Descartes ou o que poderíamos lembrar como o simplório monadismo
de Leibniz, se resolve na mensagem religiosa, infantil de tão
cristalina "lógica". O ser humano é nada, Deus é tudo.
Ora, o "desprezo da natureza humana" que move um Baltasar
Grácian limita-se a circunscrição bem barroca se ela é mais como
a natureza concupiscente, perenamente insatisfeita consigo mesma, do
homem à Pascal, do que apenas com o pragmático embate dos egoísmos
visando o domínio dos Renascentistas à Maquiavel. Carpeaux, que
pende para a interpretação pragmática de Alfonso Reyes contra a
intelectualista de Azorin quanto a Grácian, na verdade não quer
dizer que o jesuíta impenitente não almeje caracterizar a bem
seiscentista oposição do primitivo e civilizado como puramente
instintivo animalesco e racional intelectualizado (p. 749). Para
Carpeaux, Grácian tem o mesmo objetivo de Calvino: "A
disciplina dos instintos em Grácian não é muito diferente da
'ascese de trabalho', base calvinista da mentalidade burguesa,
segundo Max Weber" (p. 750). Como vimos, Carpeaux considera o
assunto liquidado pela demonstração de que a via "barroca",
isto é, segundo ele, a própria via da "alma espanhola",
dessa ascese necessária historicamente pela pressão ascencional da
burguesia, não serviria muito tempo sem ser todo o tempo
contraditada pelo antibarroco maquiavélico. E a solução é a
ultrapassagem do espanholismo seiscentista pelo Iluminismo francês
do setescentos.
21
Creio que muito do que Carpeaux demonstrou até aí, conforme vimos,
é válido, porém ele não resolve a questão de como o Ilumismo
francês é uma solução contrária ao fundamento do maquiavelismo
que fez até ela a ponte desde a origem barroca da "ascese".
Uma vez que, como ele mesmo salientou, o desprezo graciniano do
mundo, a seu ver à La Rochefoucauld, conduz apenas ao que o próprio
maquiavelismo preconiza, a necessidade capital da conservação do
poder pelas elites, e mesmo pela monarquia à Richelieu, de modo que
as decisões não caiam nas mãos do povo como da natureza bestial do
homem não isntruído. Além disso, seria forçado considerar o
Iluminismo um compromisso do pessimismo da natureza humana
corrompida.
22
Entre o barroco definido como "alma espanhola" ou como a
política jesuuítica de Filipe como inverso do humanismo de Carlos
V, talvez haja menos uma contradição de Carpeaux do que a
interpretação da monarquia barroca como expressão do tipo
nacional, ao contrário do que pudesse ter sido localmente a cultura
importada do Renascimento italiano. Assim o barroco espanhol seria
exemplarmente oposta à "clarté" classicista francesa. Mas
o problema continua, posto que o barroco não existiu sempre. Já a
concepção de Carpeaux sobre Sêneca e Tácito, os dramaturgos da
era Helenista, como as referências principais do barroco, acentuando
que Tácito mesmo era espanhol, apenas implicaria a consequência
surpreendente de que o verdadeiro "ressurgimento" da
Antiguidade pós-feudal é o século XVII espenhol, inversamente ao
período conhecido como Renascimento italiano. Como vimos, um
conceito assim, por mais inusitado que seja, parece convir ao fato de
que o regime político do Helenismo é o Império absoluto e
divinizado, para a conveniência de um comércio internacional tão
vasto a ponto de ligar de Roma à China, ao contrário do pequeno
principado de um homem denodado. E que o cristianismo não era
incompatível com o império antigo se comprova pelo fato de ter sido
ele que o formalizou pioneiramente como uma religião de Estado. O
escravismo moderno é bem compatível com um império católico, o
que já demonstra a Antiguidade. Como os historiadores à exemplo de
R. Lopez mostraram, não foi o catolicismo que pregou contra a
escravidão antiga, posto que ele era a favor dela como instituição,
mas sim a circunstância do despovoamento do império, que tornou o
escravo um bem precioso que era preciso conservar como trabalhador,
transformando-o em "servo casado", isto é, dotado de casa.
23
Além disso, para reduzir o barroco à alma espanhola seria
necessário explicar porque o barroco foi, não apenas um estilo de
influência internacional, mas de fato o estilo que se considera o
pioneiro estilo "nacional", no sentido de ser uma
característica sua refletir a cultura da nação em que vem a
florescer. Esse quesito tem um significado especial quando se trata
do continente americano e do Brasil, porque a nação nesse caso
estava coalescendo como uma realidade de cultura autônoma justamente
nesse momento, em que como "colônia" começa a ter
consciência dos problemas e situações próprios. O barroco foi o
veículo de expressão dessa consciência nova. O fato de ser estilo
nacional explica a grande variedade de periodos barrocos, uma vez que
nem todas as nações que o tiveram coincidem quanto ao início e
duração do barroco em seu interior. Em todo caso, no século XVIII
a influência internacional já é a do Aufklaerung francês, e para
esse estilo o epíteto "Internacional" é literalmente
adequado, já que reflete a universalidade que pretende a ciência
objetiva.
24
A questão é portanto o hiato entre o Renascimento, como de qualquer
conceito de continuação da Antiguidade após o regime anômalo
circunstancial do feudo interiorizado, e a Modernidade em sentido
autêntico. Localizar no Aufklaerung a mudança e tentar explicá-la
pelo modo como aparecem seus efeitos também não é de todo
suficiente. Como vimos, o século XVIII não produz a verdadeira
ruptura como conceito de cultura histórica - assim até aí
não se produziu independência nas colônias. É certo que se
costuma atribuir a influência do Aufklaerung nas guerras de
independência americanas, porém as nações só se estruturam
realmente à luz do Romanticismo, com seus conceitos de constituição,
língua e cultura nacionais, isto é, enquanto produtos da história
da formação étnica miscigenada local. Seja como for que se venha a
lidar com o problema histórico da modernidade, a falha do
Aufklaerung como verdadeiro locus da ruptura não implica que ele não
tenha sido o horizonte eventual da mudança, e em contraste com o
século XVII, o século da emancipação do espírito científico.
25
A trajetória da emancipação da ciência é pois o que situa uma
trajetória autêntica da ruptura da modernidade, não redutível ao
prolongamento pós-feudal do pensamento antigo, e somente em função
da qual podemos nós estabelecer critérios da interpretação da
Antiguidade. A ironia, pois, é que até aí, se não há a ruptura,
havendo porém um processo em marcha, uma irredutibilidade temporal,
não há a consciência da ruptura como necessário correlato da
situação enquanto presente. A ironia se explica pelo caráter
radicalmente anti-histórico do pensamento metafísico antigo e assim
como modulado no século XVII. Para ele, pois, o passado é
inteiramente acessível.
26
Retomando a interpretação de Carpeaux, vemos que se não nos
convence a síntese proposta, a necessidade de síntese é
sintomática. A assunção da subjetividade como gênese do sentido é
o que define a modernidade desde o romanticismo, mas o simples
barroquismo do mundo natural limitado entre o sonho e o engano, em
perfeita antítese ao discurso do mestre que alcançaria a verdade em
si do outro mundo transcendente, não poderia prover qualquer
síntese. O problema da interpretação do barroco, que reclama
resolução ao que me parece, é pois a ausência de mediação entre
o animal e o deus, ambos como possibilidades em luta no íntimo
coração do homem. Esse problema encontra ressonância plena em
Pascal, em que devemos nos deter antes que o possamos verificar como
se desenvolve naquela parte do século barroco ainda não examinada
até aqui, o mundo cultural protestante.
III
1
A meu ver o modo como Pascal coloca o problema do homem frente à
verdade é enganosamente endereçado. Ele parece um enunciado sobre
como são as coisas relativamente ao homem. Mas o que enuncia de fato
são as duas conclusões antitéticas das mentalidades que disputam
no interior do século, a pagã renascentista e a cristã barroca.
Podemos observar que o contraste é expresso com termos familiares à
pregação jesuítica, o "vil bicho da terra" contrastado
ao criador das ciências e glória do intelecto. E que Pascal não
desmerece o limite pirrônico da skepsis
frente
a essas e demais opiniões contrárias. Mas sua estratégia consiste
em colocar a filosofia num contraste absoluto com a fé, assim como
todas as opiniões possíveis sobre o homem frente à oposição
única do humano e Deus.
2
Afirmando-se inimigo ferrenho e delator de qualquer aliança de razão
e fé - ele de fato denunciou à igreja um assim designado "santo
Angelo" que defendia a conciliação - trata-se pois da posição
contrária à primeira. O que tornaria Pascal um estranho no século
XVII, onde o racionalismo e o empirismo estão inversamente
produzindo fórmulas conciliadoras, como os sistemas do mundo
racionalistas entre Descartes, Leibniz e Spinoza, com sd ideias
expressando a realidade eterna definida portanto como a mente de
Deus, ou ao menos fórmulas da tolerância, como entre os empiristas.
Se o século for revisitado pelo ângulo da intolerância religiosa,
ao contrário, a posição de Pascal poderia parecer emblemática.
Contudo é arriscado supor que sua posição condenatória da razão
quando se trata da fé espelha de fato a intolerância jesuítica do
século.
3
Como já vimos, Pascal odeia a Inquisição e escreve
provocativamente contra ela (parágrafos 919 e segs.). Aqui trata-se
de ressaltar que sobreduto ele o faz defendendo a liberdade de
expressão dos cientistas tanto como de jansenistas, ridicularizando
assim, em nome da verdade, a condenação de Galileu. O argumento de
Pascal explicaria talvez o encadeamento tão abruptamente antitético
do século XVIII anticlerical e antiteológico, a este século tão
radicalmente piedoso, pois como Pascal riposta cheio de desprezo, a
terra não deixa de rodar apenas por causa da ignorância da igreja.
Logo, a posição da razão em seus pensamentos não é denegada
apenas porque é a seu ver inconciliável com a fé.
4
O problema de se entender o significado da razão científica numa
pregação voltada a desacreditar toda via humana da certeza, desde
que aquele significado não pode ser de simples denegação nem
desvalorizar ao mesmo tempo o pirronismo em filosofia, pode ser
traduzido pelo dilema em que se encontra hoje a recepção
historiadora de Pascal, entre os exemplos de Bréhier e
Schleiermacher.
5
"Pascal não é um filósofo", conforme Bréhier, "é
um sábio e um apologista da religião católica" - aqui o uso
moderno do termo "sábio", já com o sentido de "cientista"
ao contrário de "pensador", o que a tradição designava
"filósofo". Essa posição de Bréhier é bastante
criteriosa, colocando Pascal como antípoda de Descartes na ordem das
designações. Se Descartes é sábio e apologista mas apenas até o
ponto em que consegue colocar ambas as posições numa só "cadeia
de razões" ("chaine des raisons"), conforme Bréhier
"o gênio de Pascal, ao contrário, o interdita de fazer entrar
ciência e apologia no tecido de uma filosofia e de deixar fora de
consideração as verdades da fé". Para Schleiermacher,
conforme Vergez e Huysman ("História dos filósofos ilustrada
pelos textos", Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1988, p. 200),
ele é "o mais profundo dos filósofos franceses".
6
Os próprios Vergez e Huysman consideram Pascal um filósofo, mas
apenas num sentido que o existencialismo após Kirkegaard tornou
conceituável: "Pois ele só reflete a partir da condição
humana, da experiência vivida". Não se compreende porém
porque a fórmula do romântico Schleiermacher seria um exemplo da
definição "neste sentido", uma vez que o romanticismo se
opõe ao século XVIII assim como aos temas do paganismo clássico se
opõem os cristãos. E a ironia de que podemos suspeitar na definição
de Vergez e Huysman, é que o "existencialismo" mais
representativo, como Heidegger, negaria a possibilidade - ainda - da
"filosofia", conforme a um futuro que só podemos destinar
ao "pensamento".
7
Heidegger se posiciona assim logo após o positivismo do século XIX,
onde vemos - afinal - a ambiguidade de pelo menos quatrocentos anos,
entre o clássico e o cristão, se desfazer. A vitória da ciência
será sem qualquer dúvida possível a partir desse momento. Mas
assim constatamos uma coincidência talvez ainda não pensada até
agora. A vitória da ciência, do positivismo até hoje, se anuncia
sobre uma história conflitiva que não começa como acaba. A
princípio o conflito é entre fé e razão, mas quando Heidegger
anuncia "o fim da filosofia e a tarefa do pensamento", ele
já é entre ciência e metafísica, ciência e filosofia. O começo
da história é pois um conflito em que a filosofia está
inteiramente do lado da ciência, para um desfecho em que ela somente
é o contrário da ciência.
8
Poderíamos convergir a definição existencialista do pensamento à
Vergez e Huysman, e essa constatação inusitada. O próprio
Schleiermacher como um representante da temática cristã
romanticista, prolonga certamente aspectos dos "Pensamentos"
de Pascal, uma vez que independente do problema interpretativo que
ora examinamos, o cerne do romanticismo é a limitação "jansenista"
da salvação pela graça como uma escolha porém sendo feita agora
na Alemanha protestante. É fato, como podemos constatar nas "Lições
de arte dramática" de F. Schlegel, que a temática está vazada
em termos humanísticos. É o porque do romantismo literário ter
desenvolvido tantos anti-heróis grandiosos, voltados ao mal porém
apenas para exemplificar o destino da queda. Essa condição humana
do não-salvo, do não-eleito por Deus para a eternidade após o
juízo, aparece pela primeira vez como verdadeiramente pensável.
Aqui pois teríamos uma subsequência ao próprio Pascal enquanto
pensador do homem como ente relacionado a Deus.
9
Não sendo porém, conforme a doutrina cristã interpretada pelos
românticos, apenas a condição do grande ambicioso que não mede
sacrifícios quando se trata da disputa pelo poder mundano até o
pacto com Satã, aquela que não será salva, uma vez que o destino
das almas ninguém pode conhecer além de Deus mesmo, o ser humano é
uma alma que anela por algo que não está garantido a ela obter. O
anelo é pois pelo infinito, a eternidade garantida só pela
salvação, e esse é um valor exclusivo cristão, que o mundo
clássico não conhece, limitado ao ideal da "perfeição",
ou seja, do que tem limites precisos. Vem assim a oposição dos
valores estéticos, a beleza plástica do clássico greco-romano,
contraposta ao pitoresco romântico.
10
Aqui não seria interessante o questionamento posterior, como o faz
Mondolfo, dessa caracterização romanticista da mentalidade clássica
greco-romana como avessa a qualquer inspiração do infinito, ao
contrário do anelo da alma cristã. Mesmo sendo um pensamento
histórico da miscignenação, o romantismo a continha nesse limite
de "uma" história, um processo nacional irredutível a
outro, e o importante nisso é ter ele lançado a base de toda
posterior consideração da cultura como um referencial autômomo -
conforme Nietzsche por exemplo pôde considerar a seu modo a oposição
de romântico e cristão, de modo a atribuir o infinito dionisíaco
principalmente aos gregos, ou como o "mito ariano" foi
composto em função da unidade de mentalidade da "raça branca"
indo-europeia.
11
Assim foi o romantismo quem primeiro concebeu as culturas como
mundos de valores autônomos, e ele é o momento em que a "cultura"
vem a ser descoberta. O classicismo é uma definição do intelecto
universal, a partir da matriz greco-romana, que não atende a
qualquer requisito de cultura independente. A Poética aristotélica,
que serve ao século barroco inclusive para justificar a arte contra
a condenação religiosa pelo fato da arte poder espelhar valores
desta razão que é, à Boileau, o liame da fé uma vez que da
moralidade como do são costume, é pois o único critério para
julgar algo como obra de arte. O significado de "clássico"
se alargou, desde o estrito atributo greco-romano, para designar
qualquer julgamento da arte e da cultura que não atenda ao requisito
de peculiaridade que convem à sua autonomia, julgando-as por
critério extrínseco que se considera universal. O romantismo, em
sua oposição revolucionária e pioneira ao classicismo, descobriu
as culturas nacionais, e as subculturas que compõem as linguagens
praticadas num entorno definível de valores e idioma, como a canção
popular que inspirou a criação do Lied erudito. A arte se tornou
julgável segundo o conceito estilístico em que se desenvolve,
irredutível a outros conceitos estilísticos possíveis, e assim
nasceram as teorias estéticas da modernidade, responsáveis pela
construção de instrumentos heurísticos que possibilitem decifrar
uma certa linguagem cultural em sua coerência intrínseca.
12
Mas se a cultura é também o meio do pensamento pós-positivista,
que nasce como uma reação à nova universalidade da ciência
triunfante desde o "positivismo" contra-romântico, e a
ponto da oposição de ciência e cultura ser aí o que emerge como o
que lança proprimente a reação, o "existencialismo"
pós-positivista é culturalista como o romanticismo, mas entende a
cultura de todo ao contrário do que a miscigenação histórica. Ela
é agora um sistema ideal absoluto. Assim como a língua não é para
ele, na base, um "Romanço". O romantismo desconhecia a
cultura como uma problemática da repetição, e, assim, da
pre-sença. Os significados de humanismo e vivido, romântico e
existencialista, podem ser bem irredutíveis. Não desconhecemos a
opinião que considera o culturalismo "existencial"
pós-positivista uma reedição do romantismo, porém um cotejo das
premissas com que ambos operam permite questionar profundamente essa
opinião.
13
Pascal poderia ser colocado pois, como o primeiro pensador da
oposição de ciência e cultura. Nisso o romantismo o prolonga,
porém sendo de fato menos coerente com o seu método do desacordo do
que o pós-positivismo radicalmente anti-científico. Para os
românticos, ciência e cultura são irredutíveis, porém postáveis
como numa linha contínua das realizções do espírito humano. Assim
nascem as "ciências humanas" com o romantismo, ou seja,
com um método próprio, oponível ao das "ciências da
natureza", porém sem que a oposição seja de fato um
antagonismo. Este aconteceu primeiro no positivismo, pela ciência da
natureza contra a postulação de qualquer metodologia estranha à
sua como proprimente científica. As transformações da ciência,
principalmente do evolucionismo de Lamarck ao de Darwin, foram aí
decisivas, e já vimos que o positivismo já não é o momento da
independência das nações, é sim o do imperialismo universalista
da Revolução Industrial. Se o positivismo não é bem oposição de
cultura e ciência, mas apenas a supressão da cultura pela
inteligência restrita à ciência - e o "resto" mera
"ideologia" - a oposição antagônica de cultura e ciência
coalesceu na curva para o século vinte, quando as desventuras do
"darwinismo social" - a aplicação infeliz do darwinismo
biológico nas ciências sociais - tão caracteristicamente
positivistas se tornaram reveladas. As "leis de ferro" do
positivismo, achadas até aí para todos os domínios científicos
como para as "leis fonéticas" dos neogramáticos, foram
abaladas até às profundezas, como no exemplo da lei de Fechner em
psicologia, que prevê diferenças logarítmicas definidas para a
percepção das diferenças de peso, vendo-se contraditada agora por
nuances detectadas na experiência do vivido real.
14
Mas se Pascal foi o primeiro pensador dessa oposição de ciência e
cultura, uma vez que nele, filósofo ou não, a oposição não é
feita em nome da teologia ou como tal, vemos que nele a posição
antinômica da cultura relativamente à ciência é preenchida pela
unidade da fé. A consequência é momentosa. Pois na retomada da
oposição com o existencialismo culturalista, o princípio de todas
as controvérsias no interior deste - quanto ao significado de humano
e vivido - são animadas por essa premissa comum, como já vimos. Ou
seja, da unidade de significação absoluta da cultura em sua
irredutibilidade mesma às demais. Nenhuma heterogeneidade é
possível, nenhuma "história" que não seja fato de
estrutura.
1 5
É pois como se, estudando o pensamento de Pascal, houvéssemos
encontrado o fio vermelho desse humanismo, que ao contrário da
conhecida história, é irredutível ao Renascimento erasmiano.
Trata-se da antinomia entre a ciência impessoal e seu outro dotado
de significação "para si". Como antinomia, o termo oposto
é - igualmente - "um".
16
O sentido em geral do humanismo existencial, independente das
controvérsias entre suas tendências, é muito aprofundado
relativamente à limitação das "ciências do espírito"
que mesmo o romantismo havia lançado. E nesse sentido podemos
considerar também Pascal mais radical que os românticos. Toda queda
do sentido humano na impessoalidade radical da verdade científica -
embora esta não venha ser negada - é pecado e concupiscência, ao
contrário da pluralidade romântica de razão e espírito imanente
ao ser humano. Podemos reconhecer o existencialismo nessa pretensão
de Heidegger sobre o Dasein - a pre-sença que não se reduz
ao universal reconhecimento, mas se enuncia como procedência em
função da "consciência" (Gewissen) - vir a ser o já
enunciado na filosofia prática de Aristóteles. Ou seja, as suas
matérias humanísticas como retórica, ética, política, e inclui
Heidegger o "de Anima". A filosofia prática é pois, como
em Aristóteles, aquela que se opõe à filosofia teórica, onde
entrariam a teoria do conhecimento e a ontologia. Ora, o ramo
arendtiano da polêmica neokantiana "humanística"
existencial contra toda posição "teórica" filosófica,
conduziu a uma posição à esquerda do próprio Heidegger, em função
da condenação do "pensamento" com vistas ao limite
prático só na "ação". A acusação de Arendt ao que
seria platonismo teorético de um Heidegger enganoso quanto ao seu
Aristóteles, é porém deploravelmente ridicularizável pela
demonstração da Teoria Crítica ela mesma - uma tendência
culturalista anti-teórica radical, vindo de Benjamin, Adorno e
Horkheimer, que retem no próprio nome o complemento "crítico"
voltado pois contra toda mera "teoria", bastante
convergente com Arendt. Pois como Horkheimer escreveu, a posição
"crítica" nesse mesmo sentido de ativista radical é
creditada platônica e por extensão aristotélica, uma vez que em
ambos se fez convergir todo pensamento com a questão política. Ou
seja, enquanto oponível ao atribuído individualismo das demais
filosofias como epicurista e estoica, Platão e Aristóteles seriam
os referenciais dessa "constituição racional da sociedade"
de que depende o próprio "desenvolvimento livre dos indivíduos"
assim como procederia a atual dialética crítica entendendo o seu
objeto como a economia (Os Pensadores, vol. "Benjamin, Habermas,
Horkheimer, Adorno"São Paulo, Abril, 1983, p. 156, 7).
17
Porém não é a toa que o culturalismo anti-"impessoal"
desaguou no nazi-fascismo. As características do totalitarismo
contemporâneo mais aversivo à heterogeneidade a ponto de ter sido
um racismo genocida no mais alto grau, são decalcadas desse
princípio. Seria esperável que elas fossem tradutíveis para o
ativismo radical contemporâneo como da Teoria Crítica e New Left.
As brincadeiras provocativas ao invés do atendimento normal no
mercado como nas relações sociais; a intrusão da sociedade contra
toda suficiência individual, isto é, a ditadura com poderes
censórios de todo conteúdo da inteligência, que na nova esquerda é
o axioma da precedência da ação; os mitos do folclore mais
infantis, ao invés de conteúdos da cultura histórica letrada; a
propaganda da morte do antagonizado ideológico/racial - assim na
teoria crítica o mero "pensador" ou sujeito da democracia
independente, como não "encarnado"; a propaganda da "raça"
(indo-europeu, ariano) como "superior" responsável pois
pelo futuro da espécie - substituindo-se a raça pelos ativistas do
aparelho político que, inclusive, hoje são também ramificações
de "minorias" raciais; a ciência e universidades
submetidas à militância do partido, de modo a não haver ciência
autônoma e internacional.
18
A ironia histórica é pois notável, uma vez que partindo de um
início onde a oposição unitarista à ciência era feita em nome da
fé, como em Pascal, a exigência era porém da reforma da Igreja,
contra a Inquisição, pela liberdade intelectual. Quando a oposição
se torna da cultura "em si e para si" humanística, ao
contrário, ela suprime precisamente essa liberdade como se
esgrimisse contra a camisa-de-força que mantem a todos aprisionados
contra si mesmos. Todo positivismo ou neopositivismo corresponde
certamente a uma pretensão de amordaçar qualquer "verdade"
pretendida na cultura independente do resultado da pesquisa
científica. Porém confundir democracia - onde os sujeitos tem sua
independência existencial garantida - com anti-existencialismo, por
um lado pela redução da "existência" a fato social, por
outro pela confusão mais deplorável entre democracia e positivismo,
quando Comte e Marx são adeptos da ditadura, etc., apenas poderia
ter conduzido à impossibilidade da esquerda que está presentificada
no caos brasileiro da atualidade. Uma vez que na globalização as
correntes acadêmicas foram arrastadas pela propaganda maciça de
Habermas e da new left como se fossem expoentes do pensamento "novo"
- ao contrário da verdade, que os situa antes do rise
estruturalista, porém muito tipicamente conforme ao imperativo da
"novidade" que redunda no apartheid etário como mais um
fator do nazi-fascismo não só difuso como também expresso atuante
nesse caos.
19
Já observei que a propaganda da new left habermasiana - como um
ramo da "teoria crítica" - e de sucedâneos do
existencialismo à Gadamer, foi bastante relacionada à ação da
"companhia de Jesus", conforme a edição da revista do
movimento. E artigos que conheço mostraram a penetração dessa
tendência em instituições brasileiras, como de polícia, vindo
porém da influência de aplicações específicas feitas em outros
países, como nesse caso a África do Sul (programa "verdade e
confiança").
20
As características da new left levaram pois à desqualificação da
educação pública, à confusão de público e privado, a
valorização mais ridícula da agressividade fascista, à corrupção
como desprezo pela legalidade suposta "impessoal" e
consequentemente ao roubno direto da população com total
avassalamento das economias periféricas. Levou, pois, ao caos
social, econômico e cultural esperável num quadro de recolonização
tal que os serviços básicos e setores estratégicos dos países do
terceiro mundo - ou alguns proeminentes como o Brasil - estão
formalmente desnacionalizados e privatizados. Ao mesmo tempo, a new
left local foi apenas um componente da já muito conhecida política
de "modernização conservadora", pois ao lado do desprezo
pela legalidade e cultura letrada, a técnica info-midiática de
multinacional suposta - única - expressão do "novo" é o
meio que faz toda e qualquer mensagem, conforme a previsão de
MacLuhan.
21
Ora, como o pioneiro pensador da oposição de ciência e cultura,
Pascal foi também o primeiro pensador da impessoalidade da ciência,
como também da separação radical de intelecto e espírito no
interior do próprio homem. Nisso ele é de fato estranho ao seu
século, quase um pré-romântico à Rousseau. Mas a pergunta sobre
se assim pudemos constatar ao contrário de Bréhier, um Pascal bem
"filósofo", a ambiguidade do termo entre a tradição e o
significado de "pensador" aqui se torna preponderante. A
pergunta pertinente talvez não seja essa, mas sim se Pascal pode ser
considerado um pensador ainda pertencente à tradição metafísica.
22
Este é com efeito, o nó da problemática. Há muitas
desconstruções da metafísica na história pós-feudal, e elas não
são coerentes entre si. Se uma das mais recentes, a existencialista,
vem desde o pós-positivismo a significar por "metafísica"
qualquer pretensão da verdade universal independente da
peculiaridade da estrutura cultural, assim inclusive a ciência, uma
das primeiras é o Aufklaerung setescentista que ao contrário, fazia
significar por metafísica tudo que a ciência pudesse excluir de si.
23
Nas correntes desconstrucionistas da atualidade, Heidegger sedimentou
um conceito de trajetória metafísica como história do ocidente
interpretada em termos de destino imperialista, a partir da própria
metafísica como o que a psicanálise diria uma neurose do Ser. A
disposição do ser como significado universal que não pode colocar
a questão de si mesma, devido ao desvio na origem da interrogação
possível, que passa a ser apenas da possibilidade da própria
disponibilidade recognitiva pressuposta enquanto tal. Assim é nesse
sentido que a pergunta sobre a relação de Pascal e a tradição
metafísica se torna pertinente.
24
Sem dúvida a fé católica de Pascal corresponde plenamente a um
enunciado metafísico, ou seja, um enunciado universal totalizante,
enquanto crendo-se de todo oponível ao devir, sobre o ser e o
sentido, nesse caso, sobre Deus e o Homem. Porém se a História do
Ser heideggeriana é aqui o critério da tradição, ela posiciona,
sim, mas a Descartes como a matriz da nova metafísica da
subjetividade, que a partir do século XVII introduz o que virá a
ser a posição objetivante do Homem no seio da natureza. Não há
qualquer posição de Pascal, ou do próprio empirismo, como linha de
fuga da metafísica na História do Ser conforme Heidegger a
estabilizou em seus escritos da década de quarenta recolhidos no
"Nietzsche 2". Assim, se a metafísica sofre no século
XVII a transmutação do objeto que se torna o que subjaz defronte a
um sujeito, ela é inteiramente o Cogito cartesiano, com o empirismo
e tudo o mais apenas variações do tema, a representação ideísta.
25
Um cotejo entre Pascal e Descartes é porém usual nos historiadores
da filosofia. Algo compreensível, já que, por um lado, a estranheza
dos Pensamentos lança a aporia do savant filósofo
restrito à apologética, mas também por isso que Descartes é
usualmente utilizado como o divisor de águas do século. Assim em
Vergez-Huysman, Malebranche, Spinoza e Leibniz são estudados num só
capítulo sob o rótulo "os cartesianos". Hobbes e Locke
são agrupados num outro capítulo ("os empiristas do século
XVII"). Filho do grande século, Pascal é entretanto estudado
à parte, em capítulo subsequente aos "cartesianos", antes
dos "empiristas". Porém o principal elemento construtivo
desse texto sobre Pascal é o trecho intitulado "Pascal e
Descartes" onde se desenvolve o axioma: "... Pascal seria
ininteligível sem a filosofia de Descartes... O caniço pensante,
que vale mais do que essa matéria cega que o arrasta, é o homem
cartesiano 'Instinto e razão', marca de duas naturezas...",
etc. (p. 202) Como vimos, Bréhier soube tornar Pascal e Descartes
irredutíveis, porém ao preço de tirar Pascal da história da
filosofia no status de filósofo, para fazer sua inclusão apenas
enquanto pensador da ciência e apologista da religião. O profundo
humanismo dos Pensamentos não escapa ao historiador só por
isso. Segundo Bréhier, Pascal teria introduzido com efeito uma
"ciência do homem" que, ao contrário da dedução
cartesiana, a partir do princípio racional único, procede pela
tipologia dos "espíritos" independentes uns dos outros.
26
Os espíritos geométrico, de justeza e de finesse, conforme a
tipologia de Pascal, são tão independentes entre si que aquela
pessoa melhor dotada de um deles fará ridículo se tentar provar sua
excelência num outro. Eles são respectivamente talentos necessários
em três domínios igualmente independentes: das matemáticas, da
física e do mundanismo. Ora, assim temos uma física contrária à
cartesiana pelo próprio método, posto que experimental, cujas
verdades não são portanto dedutíveis de princípios matemáticos.
28
Mas Bréhier evitou a utilização do termo "empirista",
mesmo se o discernimento do espírito de justeza serve à
demonstração de que só a experiência - não os princípios à
Descartes - permite esclarecer as verdades referentes por exemplo à
hidrostática e ao vácuo. Uma evitação justa, se a tipologia - que
no entanto Bréhier registra não ter sido teorizada por Pascal além
da definição, mas sim vivida por engajamento "com fogo e
paixão" - parece ter servido justamente para resolver o dilema
entre racionalismo e empirismo.
29
Carpeaux pretende, inversamente, que foi "o seu empirismo"
o que conduziu Pascal à sua oposição fundamental entre os
espíritos, de modo que "nem para todas as ciências serve o
mesmo método" (op. cit. p. 696). O "anticartesianismo"
de Pascal estaria expresso na sua fase famosa ao ponto do popular: "O
coração tem razões que a própria razão não conhece" (p.
695). O anticartesianismo de Pascal explicaria pois o sentido da
proposição. Porém para Carpeaux ser anticartesiano e empirista
significa ser um aristotélico que purgou o velho Aristóteles de seu
vício dedutivo, liberando-o assim exclusivamente para sua vertente
experimental. O que não é pouca coisa, nisso também Carpeaux
distinguindo-se de Bréhier: "Evidentemente não se trata de um
mero especialista em matemática e física", mas sim do
"criador da prosa moderna", o "gênio literário mais
completo da nação francesa". (p. 692) Ora,
para Carpeaux, ser anticartesiano e aristotélico significa não ser
um jansenista. A oposição de Pascal e Nicole torna-se marcada em
Carpeaux , como a do cético existencialista cuja fé está muito por
cima da razão ao católico típico (p. 695), e do humanista por
comparação. Ao contrário dos jansenistas que tem um ponto de
partida teocêntrico, o de Pascal é antropocêntrico,
tendo por objetivo
furtar-se
às
"misérias da condição humana". (697)
30
Aqui a opinião de Carpeaux não é idiossincrática. Contra Krantz,
um representante da opinião comum sobre Descartes como "'spiritus
rector' da literatura clássica", ele segue Brunetière, fazendo
ver que "o número dos cartesianos professos do século XVII é
surpreendentemente reduzido", não o tendo sido Bossuet,
Corneille ou Pascal, e, assim, de fato, "o que parece
cartesianismo na literatura francesa do século XVII é antes um
traço característico da literatura francesa inteira: o gosto da
exposição sistemática, da clareza metódica, da composição
simétrica. Os clássicos do século XVII não precisam de Descartes
para aprender isso". (p. 691)
32
A introdução dos Pensadores não registra uma ruptura decisiva de
Pascal com o jansenismo, mas uma duplicidade de opções no interior
do próprio movimento jansenista. Pascal não segue sempre a via da
militância, típica da abadessa Angelique e Antoine Arnaul ou de
Pierre Nicole. Pascal se submete à bula papal que proibe o
jansenismo, mas para abraçar a via do retiro espiritual que seguiram
também sua irmã Jacqueline e Barcos. Assim se demarcam as duas
fases típicas, a militância das "Provinciais" e a via
interior dos "Pensamentos" - porém ao contrário dos
Pensadores, geralmente trata-se igualmente a este último como
apologética assim como faz Carpeaux (p. 695). A posição dos
Pensadores quanto ao status filosófico dos "Pensamentos" é
inequívoca, uma vez que utiliza a citação de Lucien Goldman, na
qual este grande crítico observa que os Pensamentos de Pascal
fazem o paradoxo alcançar Deus ele mesmo - "certo e incerto,
presente e ausente, esperança e risco" - pela incerteza humana
da salvação como podemos compreender. E assim "Pascal pôde
escrever os Pensamentos e abrir um capítulo novo na história do
pensamento filosófico" (op. cit. p. XII).
33
Para Carpeaux a adesão quase universal dos franceses ao jansenismo
significou apenas simpatia, ao contrário de adesão fervorosa. Após
as Lettres Provinciales, que com todos os seus defeitos teria
se aproximado da grandeza de um Demóstenes e obtido um efeito tão
destruidor que até hoje o rótulo "jesuíta" soa
pejorativo, Pascal teria se decepcionado com o movimento. Mas nem
tanto por motivos criticáveis explícitos - como o subterfúgio de
"assinar com reservas mentais" o compromisso com o papa
devido à força da legislação. Carpeaux considera ter ocorrido uma
ruptura decisiva pelo fracasso de Pascal naquilo que um Nicole teria
considerado plenamente alcançável, as demonstrações lógicas e
históricas em matéria apologética cristã. Ao contrário, Pascal
não teria conseguido servir ao objetivo de demonstrar
geometricamente a existência de Deus, nem acreditado nas ostentaçõe
dos outros, mas ao contrário de Descartes, para quem se isso
acontecesse renunciaria à religião, tornou independente a fé. A
meu ver esta seria a essência do jansenismo, uma fé que não
depende da certeza de salvação pelas obras, como não pode depender
da incerteza da salvação pela graça. Uma fé que se resume pois em
amor por Deus, queira ele salvar-nos ou não. Para Carpeaux, se as
provas históricas servem a apologética apenas como as maneja
Pascal, isto é, não para demonstrar a verdade transcendente, mas só
para demonstrar a fé que moveu os crentes até as perseguições
mais crueis, isso já destoa do jansenismo, já é um humanismo. (p.
695)
34
Carpeaux não esconde uma certa simpatia pelos jesuítas, defensores
das obras, ao contrário da via ascética como prova solene do amor
por Deus: "A religiosidade acética do jansenismo nada tem que
ver com progressismo e republicanismo", segundo ele, que
considera com alguns outros autores "monstruoso anacronismo"
a confusão dos eremitas e religiosas de Port Royal com precursores
da Ilustração. (p. 690) A simpatia pelos jansenistas seria antes
típica do século XVII, cujos clássicos foram todos "adeptos
da análise e auto-análise psicológicas" que ressoa a
liberdade íntima que todos desejavam, esses os traços típicos da
fonte, a oralidade dos confessionários cristãos e especificamente
de Port Royal, assim como da prosa dos diretores espirituais
endereçada aos consultantes, e das meditações e anotações
biográficas dos homens do mundo e do convento (p. 692).
35
Porém Carpeaux não relaciona assim essa doutrina da graça
jansenista com a versão protestante que segundo Weber, subjaz ao
espírito do capitalismo contemporâneo, apenas fazendo substituir a
prova do amor do homem por Deus pela prova do amor de Deus pelo
homem. Em vez do acetismo mortificador, trata-se da prosperidade como
sinal da graça, desde que a conduta tenha sido ela mesma acética,
com a poupança - inversamente ao gasto hedonista - sendo o centro de
tudo na vida social. Mas a relação dessa solução reformada com o
jansenismo católico parece bastante evidenciável, e como já
observei, o aprofundamento da premissa jansenista da graça como
risco absoluto é o que informa a revolução romanticista - isto é,
alemã - do Eu, que já não se limita ao intelecto, ao Cogito como
identidade de razão, mas vem a ser o criador dos mundos de sentido
na consciência da cultura.
36
O pensamento torna-se o absoluto, transcendentalmente subjetivo, ao
contrário do Cogito racionalista, só inato porque de origem
transcendente, um dos atributos de Deus. Este mesmo Deus para os
romanticistas, ao contrário, realiza sua subjetividade em nós
quando nos tornamos conscientes da nossa própria, mas assim o Real
tornou-se um processo histórico, um devir do Sujeito absoluto. A
metafísica encontra aí o limite, num ecletismo novo que faz dos
sistemas filosóficos da história momentos necessários do devir do
espírito. Nada mais anti-cartesiano do que a História como ciência
e como estofo mesmo do Real.
37
A meu ver a História do Ser conforme Heidegger a conceitua, é um
novo novo ecletismo. Ao mesmo tempo que momentos do devir do
espírito, como já desde o Romantismo, o fiat do desenvolvimento é
em Heidegger a re-descoberta das origens, o logos pré-socrático,
operante ao contrário da corrente principal, a desventura metafísica
do Ser como engano desviante da origem.
38
A
história do engano metafísico é pois o fiat condutor àa
redescoberta da origem falseada. É curioso que essa seja uma
trajetória típica da literatura barroca - os caminhos de engano são
a pluralidade própria das vias do mundo, mas a verdade é a
Revelação do Deus único em sua igreja. Ora, em Heidegger,
inversamente, os caminhos do engano são as formas várias pelas
quais a unidade metafísica do Ser se desfaz da confrontação à
realidade do devir,
o logos autêntico, não tradutível por "razão", mas sim
como a palavra do sentido
em que o Ser apenas se resolve em possíveis modos de ser. Em todo
caso, uma certa anulação da história enquanto
verdadeira heterogeneidade da cultura
ocorre
em Heidegger, assim como no cenário ante-histórico do século XVII.
39
A
pluralidade cultural não é negada pela oposição de sociedade e
natureza
como no século XVII,
mas ela não é histórica, é o contrário da História que consiste
naquela negação da
origem ao
longo dos milênios metafísicos que perfazem o engano do logos como
razão "ocidental".
Ou
seja, História como processo definível da dominação planetária.
40
Em Pascal, portanto, não teríamos uma via além da Revelação
metafísica. Além disso, porém, para Heidegger a oposição do
racionalismo e empirismo é anulável pelo fato de que, se para
aquele só temos experiência se antes temos as ideias inatas,
enquanto para este só temos ideias se antes tivermos a experiencia,
assim as ideias não sendo inatas, para ambos "ideias"
significa o mesmo que em Descartes, o pai do inatismo. A saber, a
razão matemática, ou, em todo caso, científica, o são juízo de
que derivariam todos os princípios. Na verdade o positivismo como
empirismo radical seria um campo de prova adequado para a concepção
de Heidegger, uma vez que o positivismo foi contraditado não por um
recuo em relação à certeza científica na era da ciência
triunfante. Mas sim porque o progresso da ciência, da termodinâmica
à física quântica, do Evolucionismo à probabilística genética,
foi no sentido de Pascal, a segregação ostensiva dos métodos e
inteligibilidades, inversamente à unidade da ordem objetiva cara ao
intelecto positivista.
41
Contudo, uma redução cartesiana unitária da revolução moderna
como objetividade - o objeto para o sujeito ideativo - ainda seria
questionável, pois como situaríamos o verdadeiro umbral do Sujeito
pensável? A pretensão kantiana de ter superado a oposição de
racionalismo e empirismo apenas a repõe em seu contexto próprio. A
síntese "transcendental" não atingiu o Sujeito, mas o
antecedeu. A verdadeira e enunciada "síntese"
histórico-social da cultura subjetivada precisou com Hegel recuar à
oposição, radicalizando-a numa legitimação da História como
Aufhebung, "antítese" em movimento até a auto-consciência
subjetiva.
42
O século anti-histórico que foi o XVII seria pois ao mesmo tempo a
revolução do Eu Penso, e a antítese máxima ao Sujeito pensável.
Ora, como vimos Pascal não enuncia apenas a verdade da Revelação,
e nisso é que eu gostaria de situar sua irredutibilidade profunda a
Descartes. Enquanto Descartes introduz essa objetividade que o Penso
garante a partir da transcendência de Deus como autor das ideias em
nós, Pascal apenas descobre um Eu que crê, independente da posição
do Ser da crença. Independente pois do Ser como cópula, como
posição generalizada do existente, à Kant. A crença não
se reduz ao solipsismo, ao contrário do que a Introdução dos
Pensadores sugere, uma vez que se ela é evidentemente pessoal, ela é
contra o próprio eu de quem crê, que deve superar-se como
naturalmente aderido às paixões. Se o homem não é anjo nem
animal, ele é a passionalidade que o impele contra o verdaderio
amor, aquele que se tem por Deus O correlato da crença é para ele
agora apenas uma possibilidade, e, assim, a crença se reduz aos
termos numa aposta, a famosa "aposta de Pascal", este o
inventor do cálculo das probabilidades, assim como da máquina de
calcular, ou seja, da cibernética e informática, criações a
partir das quais lançou a base do cálculo infinitesimal.
43
Na aposta, pois, a crença se converte num cálculo de
probabilidades. Nela somos livres, mas a escolha é a felicidade do
melhor evidenciável. Entre os dois lados da antítese sobre o Deus
da religião cristã ser existente, falso ou verdadeiro sendo
equivalentes quanto ao possível, escolher a verdade de sua
existência resulta na evitação do pior na vida prática, como
degradação dos costumes, e na conservação do melhor. Os prazeres
da libertinagem, que seriam o corolário da opção contrária, nada
são quando se tem em vista a possibilidade da salvação eterna. Mas
a fé funda uma ética da caridade na vida da Igreja, que é o
verdadeiro referencial da apologia do cristianismo nos Pensamentos,
antes que a via acética, das purgações e do silício que Pascal
acolheu pessoalmente, não obstante comentadores como Vergez Huysman
só se aterem a esta.
44
O embrutecimento pelo acetismo contra a languidez do prazer é a
recomendação de Pascal, mas à parte do incrédulo em nós, uma vez
que poderíamos renunciar à passionalidade pelo nosso amor por Deus
sem precisar do ascetismo se Deus assim o quisesse. é irônico que
ao incrédulo convencido apenas pelo cálculo evidenciado da aposta,
Pascal recomende o mesmo que Althusser considera ser o estofo único
da religião enquanto ideologia, ou seja, a ordem do praticar,
independente de qualquer conteúdo de consciência interior.
45
Nessa redução da promessa à vida da Igreja poderíamos realmente
considerar uma irredutibilidade do jansenismo, ou, mais, da
apologética de Pascal, relativamente à versão protestante da
salvação pela graça, inteiramente pessoal. Porém na apologia do
cristianismo à Pascal, como estamos constantando, o amor por Deus é
um tema, menos que da salvação por si mesma, do que daquilo que
introduziria na história uma ontologia puramente humanística. Como
está em voga sugerir à Aubenque quanto a Aristóteles como não um
metafísico, mas um metafísico fracassado, e, assim, um pensador
contemporâneo autêntico que ressitua o ser relativamente ao homem
e, assim, na imanência da antropologia, Pascal teria feito a meu ver
o mesmo com relação à Revelação. Ela não é demonstrável, mas
se mostra em seus efeitos como antropologia do Ser do Homem que crê
pela graça ou que se convence do melhor pela aposta.
46
Em todo caso, um ser que se concebe numa relação decisiva com a
salvação que é ao mesmo tempo um afrontamento do risco na
finitude. Porém assim a ontologia humanística, um antropocentrismo
como vimos Carpeaux designar, parece ao mesmo tempo um anti-humanismo
no sentido de ser o contrário do amor de si, conforme consideram
Vergez-Huysman a propósito de Pascal como pensador do ódio a si
como condição do amor por Deus (op. cit. p. 205). Em todo caso, é
a questão do Homem que está em causa. Além disso, o ódio a si não
é encerra uma ética do "Si", mas uma reflexão sobre as
possibilidades relativas aos modos de ser.
46
Não creio assim que se devesse considerar como na introdução dos
Pensadores, os Pensamentos já não apologética por adotarem
tom trágico, um desespero da humanidade. A recusa do que Carpeaux
considerou "uma doutrina clemente e humana, acentuando a
capacidade do homem para adquirir a graça por meio das atividades
caritativas e religiosas" (p. 688) como a dos jesuítas, pela
acusação jansenista de ser isso laxismo ou paganismo humanista,
lança a humanidade frente à indeterminação do destino sujeito só
ao arbítrio de Deus, mas a aposta de Pascal tem o mesmo sentido da
revolução probabilística na ciência contemporânea. O Ser são os
modos possíveis do ser em meio ao nada, ao contrário do que apenas
se opõe ao nada. A salvação é pois intrínseca aos modos de ser
como ontologia não metafísica, independente da decisão de Deus
sobre nós na eternidade além do tempo. Nesse sentido a graça
mesmo, conforme Pascal, é apenas um "figurativo", uma
figura da glória, assim como a sinagoga e as antigas escrituras são
figura da igreja e do novo evangelho (parágrafos 643 e segs.; ), os
milagres de Jesus e os profetas são meios para a realização da
verdadeira religião do amor como caridade cristã (805 e segs.)
47
Um modo de situar bem essa irredutibilidade de Pascal e Descartes,
que como vimos aporta a uma ruptura profunda relativa à concepção
do eu, encontramos em Lacan, ao conceituar este o Deus cartesiano.
Aí, num seminário que versando sobre "As Psicoses",
ministrado entre 1955/ 1956 (Rio de Janeiro, Zahar, 2008), vem
interrogar sobre o estatuto do vivido na decorrência do delírio.
Trata-se do cristianismo como o locus de emancipação da ciência
possível, uma vez que independente de todo conflito de fé e razão,
teria sido o cristianismo, ao pensar um Deus criador, que tornou
sólida a fundação do mundo a ponto de não subsistir suspeita
qualquer sobre essa solidez da presença, sobre o ente em sua
essência.
48
Essa é porém já a posição de Heidegger no Nietzsche 2. Mas
Lacan considera não ter a fundação cristã do ente se tornado
operante como substrato da ciência possível senão em Descartes,
com seu Deus que não engana. Aqui ele é subliminarmente um crítico
espirituoso e cartesiano de Heidegger, fazendo ver que se é no
interior da tradição judaico-cristã, aquela que, como Lyotard em
"Heidegger e os judeus" também notou, não apenas cria um
universo ex nihilo, mas sobretudo cria ex nihilo a lei, que se torna
assim não um correlato do Ser mas uma pura forma vazia,
transcendental, algo porém muda na época de Descartes. Uma vez que
até aí a tradição judaico-cristã estava dominada pela
fundamentação ontológica grega, aristotélica, que é a das
esferas celestes.
49
Para Aristóteles, com efeito, se as coisas não nos enganam, o real
"por mais delicado que seja de penetrar, não pode fazer
velhacarias conosco, não nos passará para trás de propósito",
se "a matéria não é trapaceira", etc., (p. 81) é porque
tudo neste mundo volta ao seu lugar desde que o mundo mesmo está
fixado em esferas concêntricas. Lacan considera até mesmo não ser
um limite escolástico a preensão do mundo pelas esferas celestes,
uma vez que esta seria uma constante do pensamento pré-científico
moderno, algo "natural ao homem" essa "presença
mental do que se passa no céu" como o absolutamente
incorruptível (p. 82).
50
É portanto quando a revolução de Copérnico e Galileu refutam a
hierarquia das esferas, que Descartes recolhe as consequências da
lei judeu-cristã naquilo que tem de mais próprio, para colocar só
em Deus a caução da imutabilidade não falseadora das coisas. Se
algo ocorre de errado na máquina, é culpa nossa e não delas. Ao
contrário, um Deus enganador se torna pensável na psicanálise como
o correlato do delírio psicótico. Entre ambos, a "antropologia
freudiana" (p. 283) teria desconstruído a oposição de certo
modo, ao instaurar um "eu" que ao contrário do Cogito ou
da ideologia, não corresponde a qualquer coisa que poderia dizer de
si atuante entre outros.
51
Um "eu" mais ou menos enganado por um Deus restrito à pura
forma da lei, esta o significante ou objeto do desejo, um eu efeito
desse significante, dessa lei, pois, que ao realizar-se sustenta
porém a ciência em seu possível. A ciência provém do
desconhecimento de si, se nós obviamente não nos reconhecemos nessa
efetuação mas só podemos nos ver como causas, Cogito, ou sermos
pensáveis como Subjetividade, fontes. Mas a ciência - ao contrário
da auto-reflexão - é o que descobrirá o engano, a miragem dos eus
que supõem relacionarem-se como sujeitos apenas da consciência
recognitiva ou moral. Quando ela o faz, já estamos muito à frente
da certeza cartesiana necessária à ciência para se fazer, já
estamos nessa psicanálise como ciência em situação de superar
todo Verstehen, todo "compreender" humanístico contra o
explicar científico-natural. A prova dessa superação é a
psicanálisse como ciência da loucura. Aí onde o "compreender"
o que se passsa não tem nenhum situamento consequente.
52
Ora, para um estudioso de Pascal seria consequente ao extremo
considerar que Lacan se engana quanto à oposição cartesiana que
supõe fundadora, entre Deus que não engana/ciência, Deus que
engana/loucura. Pois com Pascal, filósofo ou não, não há uma
filosofia possível de Deus. Os sistemas filosóficos são apenas
"libido sciendi", um "orgulho da razão",
conforme a citação de Vergez-Huysman (op. cit. p. 200). Aqui
portanto se acha aquilo que mais deveria ser evidenciável em Pascal,
o que mostra-se contudo como o que mais se costuma ocultar quando se
trata de atender à necessidade de inclusão de Pascal na história
das ideias por seu gênio e influência incomuns, afrontando-se porém
esse obstáculo que é sua fundamental restrição à fé. Ou seja, o
hiato insanável, radical, de fé e razão, para contudo uma razão
que não sendo a dos Princípios, é a dos espíritos, a prática e a
descoberta probabilística. Em Pascal a restrição empírica da
descoberta põe a nu uma ciência ao mesmo tempo insofismável,
indubitável, e sem fundamento possível além dela mesma em seus
resultados de verdade. "O silêncio desses espaços infinitos"
que o "apavoram" - eis a ciência, eis onde não é
possível situar Deus, salvador ou não.
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Esse caráter indubitável da ciência é algo de pioneiro na
história, e tanto que o próprio lugar em que se situa a sua
emergência, o século XVII, o pode tratar de outro modo, como faz
Descartes e o racionalismo da ciência terrestre como reflexo da
"mente de Deus" - evidentemente celeste, apesar da
cosmologia. Isto é, fundamentando-a de fora dela mesma enquanto
prática e descoberta, o que fazem igualmente Leibniz e Spinoza.
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Pascal é portanto a ruptura factual da modernidade na história das
ideias, como pensador dessa ironia que é uma ciência que veio a
provar-se a si mesma tanto mais que reduziu o Real ao cálculo
probabilístico. Aqui não seria tanto a máquina de calcular, com
seus resultados certos e indubitáveis, o que faz a originalidade de
um pensamento cuja motivação é essa ciência coercitiva à
evidência, para além do ceticismo correlato à variação dos
sistemas filosóficos. Em todo caso, trata-se de algo não redutível
à famosa entrada da ciência na era das leis ao invés dos fatos, o
que seria apenas pertinente à demárche cartesiana. O cálculo das
probabilidades é o que tornaria assustador um mundo ao mesmo tempo
já destituído de insegurança ontológica e por isso mesmo
desprovido de toda relação intrínseca a Deus - se conforme a fé
saudável, Deus não joga dados.
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Pascal parece ter superado de antemão a aporia de Einstein na
imanência da descoberta quântica. Mas assim ele se torna o pensador
duplamente não-metafísico. Por um lado, pensador de um eu restrito
à libido - antes da psicanálise. Por outro lado, o probabilismo
implícito na aposta seria um equivalente idealista da sublimação.
O importante, pois, é que dos instintos à inteligência, o caminho
de Pascal não está traçado de antemão por uma metafísica do
intelecto ou da harmonia pré-estabelecida. Ele se restringe,
pioneiramente, a um percurso imanente ao homem.
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Poderia parecer forçado considerar um pensador religioso, preso à
transcendência de Deus, o introdutor da via não-metafísica da
subjetividade. Com efeito, o século XVII teria com Pascal atingido o
plano da modernidade, não fosse o limite transcendente no qual se
mantém o motivo da aposta. Ao invés da subjetividade plena, o
sujeito se descobre para negar-se frente ao absoluto que continua
independente dele. Porém como vimos, Pascal supera o limite
metafísico do século, ao manter a decisão do sentido nesse plano
do homem.
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Se a Contra-Reforma e o jesuitismo católicos formam como que o
nucleo histórico secular do colonialismo imperial, uma história do
século XVII protestante não parece ter o mesmo interesse que a do
barroco latino. Não obstante é só naquela que o foco do progresso
científico mais se destaca, como tem salientado estudos sociológicos
como o de Merton intitulado "Science, Technology and Society in
Seventeenth Century England".
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O luteranismo alemão, e nas pegadas deste a pregação de Zwinglio
na Suíça, mas aí a grande influência do francês Calvino, já
haviam se tornado realidade política nacional ao longo do século
anterior, assim como o anglicanismo inglês inspirado pelo
calvinismo. Porém agora tratava-se do conflito geopolítico
relacionado ao império colonial-escravista, entre as nações que
permaneceram católicas e a expansão da Reforma.
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A história costuma expor uma oposição fundamental das ideias
econômicas protestante e católica no sentido de que aquelas seriam
favoráveis à expansão capitalista comercial, enquanto os outros se
aferravam às tradições agrárias feudais. Os historiadores mais
recentes muito tem feito para demover tal simplismo. Lutero era muito
contra o capitalismo e o colonialismo, ainda que Calvino fosse, ao
contrário, muito a favor. Em todo caso, Lutero atribuía aos
católicos a pecha, o que é compreensível visto que o império
colonial mais proeminente era o ibérico.
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O que não impediu que os países protestantes em geral e a Alemanha
em particular fossem o núcleo do capitalismo nascente, como economia
da Revolução Industrial. Segundo Carpeaux, o barroco protestante
não tem um papel intrínseco à cultura dos países reformados. Ele
fez o papel da atualização pós-feudal que coube, no mundo latino,
ao Renascimento. Mais um elemento a mostrar que do Renascimento ao
século XVII a ruptura fundamental do jesuitismo e absolutismo é
apenas paralelo à continuidade do processo de retomada do Antigo
Império.
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Podemos pois julgar o Romantismo pós-kantiano, desde Schelling
especialmente, a Hegel, uma interpretação da história sobre o que
Pascal introduzira. Mas nessa interpretação o eu se torna o
absoluto, uma vez que Deus se torna a imanência das culturas como
fontes de religiosidade. O fundamento metafísico – se Deus é o
criador, como Deus veio a ser? - se torna pois, o nada, que já não
se restringe ao não-ser, mas pelo meio da imanência inultrapassável
das culturas, a possibilidade do Ser. A auto-concepção do Homem
como subjetividade interagente na cultura viabiliza o limite
histórico do autoritarismo, a organização social das democracias.
O que se expressa como o elemento da transformação é a mutação
na margem visível – o Homem Americano já deixou de ser o homo
natura, tornou-se agente da libertação política na história. O
fundamento do nada como imanência das culturas secundou o nascimento
das Ciências Humanas, primeiramente a cientificização da História.
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Um trajeto do Logos, desde a Grécia até nós, revela pois a
ambiguidade histórica de um paralelismo de rupturas e continuidades.
Um julgamento sobre a modernidade teria que visar porém essa ruptura
fundamental da Subjetividade, por onde a Razão científica – o
sentido metafísico do Logos após o princípio aporético heraclíteo
como crítica do dado - deixa de transitar sobre a via de qualquer
problemática de justificação.
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Como vimos contra a opinião cartesiana de Lacan a propósito do Deus
– como de um Real – que não falseia, esse foi o feito de Pascal,
tornar a razão científica independente de qualquer totalização
humanística ou metafísica possível, uma vez que a ciência se
provou autônoma relativamente ao sentido, apenas máquina e seus
resultados independentes.
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Porém o que emerge na história como a problemática da cultura, o
que é exclusivo do homem e nesse status abrange agora a
religiosidade assim como a ética e a política, faz da modernidade
não apenas a descoberta do Sujeito pensável. Também um outro
discurso de fundamentação, como do “desenvolvimento” que
explicaria a descoberta a partir da superioridade de um trajeto
cultural entre os demais, a saber, o ocidental. Enquanto
justificativa do imperialismo, a dicotomia da margem e do Centro, do
primitivo e civilizado, do sem Estado e do Estado, do pré-lógico e
do científico, etc., totalizou-se como discurso da emancipação
possível, à direita e à esquerda. A pós-modernidade, quando o
berço da produção científica já se planetarizou, ao contrário
da reserva “ocidental” da criação tem se conscientizado da
necessidade de desconstruir tais oposições, mostrar como se
construíram a partir de práticas de dominação cultural, etc. Mas
creio mais necessário mostrar como o enunciado básico à
subjetividade ou modernidade, do homo istoria, como a priori
da cultura, reflete a base material que, se do colonialismo ao
imperialismo, não se restringe ao econômico como mero conflito de
classe, mas depende da ação nessa esfera inter-étnica da cultura.
Ao mesmo tempo que o saber constituído nas Ciências Humanas é
entretecido pela pluralidade cultural, inversamente ao que o
imperialismo pretende, como trajeto único do saber ou Logos
ocidental, da Grécia até a Ciência contemporânea.
A
crítica do século XX ao logocentrismo, já o vimos, não superou a
pretensão do logos unificado. Inversamente, aprofundou o parâmetro
ao colocar na sua janela crítica, como pars destruens, o seu
construto dessa unificação. Mas o pars construens, seja o modelo
funcionalista da ação, seja a estrutura inconsciente da “trieb”,
pulsão, escritura significante ou potência, mesmo que a crítica do
logos idealista, faz retorno ao logos o outro unificado do sentido. O
pós-modernismo tem tido atenção maior à experiência,
confrontando os limites das teorizações sistêmicas e na
decorrência das produções culturalmente ex-centradas. Antes tendo
sido a definição, o logos se torna a questão, de um modo
irredutível ao pré-socratismo heideggeriano, frente ao múltiplo
que ora pervade a História.
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